sexta-feira, 31 de maio de 2019

8º Fliaraxá homenageia Machado de Assis e Valter Hugo Mãe com o tema “Literatura, Leitura e Imaginação”


Entre os dias 19 a 23 de junho, no Tauá Grande Hotel Araxá, acontece aquele que é considerado um dos maiores festivais literários do Brasil, o Fliaraxá. Com o tema “Leitura, literatura e imaginação”, a edição 2019 homenageará machado de Assis e o escritor português Valter Hugo Mãe.
Abaixo, o release do Fliaraxá, divulgado na página do evento.



No feriado de Corpus Christi, de 19 a 23 de junho, a cidade mineira sedia o Fliaraxá, que conta com programação gratuita de debates, lançamentos de livros, palestras e gastronomia. Entre os convidados estão Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Alice Ruiz, Ignácio de Loyola Brandão, Cristovão Tezza, Edney Silvestre,  Luiz Ruffato, Marina Colasanti, Marco Lucchesi, Pedro Bandeira, Clóvis de Barros Filho, Conceição Evaristo e o ator Thiago Lacerda, que fará leituras

O mundo das letras mais uma vez desembarca no interior das Minas Gerais. A 8a edição do Fliaraxá – Festival Literário de Araxá – vem com o tema “Literatura, Leitura e Imaginação” para atrair o universal ao regional, produzindo sinergias onde a cultura preserva o patrimônio e este valoriza a cultura. O cenário é o Tauá Grande Hotel Termas de Araxá onde, entre 19 e 23 de junho, feriado de Corpus Christi, mais de cem autores e autoras vão se reunir para celebrar o amor pelos livros e pela leitura. Como já virou tradição, a acolhedora Araxá será inundada por um mar de gente interessada nos debates, palestras, conversas, sessões de autógrafos, encontros e leituras. Embalados pela programação musical da área de Gastronomia, instalada do lado de fora do Hotel.

Toda a programação do Fliaraxá tem entrada gratuita, graças à Lei Federal de Incentivo à Cultura, por intermédio do patrocínio da CBMM, apoio cultural do Itaú e parceria do Sesc SP.

O Patrono desta edição é o nosso mais importante escritor, Machado de Assis, que no dia 21 de junho, sexta-feira, o Brasil comemora o aniversário de 180 anos. Ele foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma homenagem será realizada com a presença do atual presidente da entidade, o escritor Marco Lucchesi, acompanhado de outros acadêmicos. A Patrona Local será a escritora Maria Santos Teixeira (in memorian). Com a presença de dois convidados especiais: Zuenir Ventura e Conceição Evaristo.

Dando sequência à vocação lusófona do Festival, o autor homenageado é o português Valter Hugo Mãe, que lança três livros novos. A novidade é que toda parte visual do evento será composta por ilustrações de Valter, artista plástico, feitas com exclusividade. O angolano José Eduardo Agualusa é convidado especial do Fliaraxá.

A curadoria é composta pelo criador do Festival, o gestor cultural Afonso Borges, pela historiadora e professora Heloisa Starling, o cientista político Sergio Abranches, a filósofa Marcia Tiburi e o educador Leo Cunha. Os curadores locais são os escritores Luiz Humberto França, Rafael Nolli e Rodrigo Feres.

Araxá retomou seu protagonismo turístico e cultural nos sete anos de realização do Fliaraxá, que promoveu uma verdadeira revolução na cena cultural local. Uma ação permanente, que perpassa os dias do Festival, fez aumentar o número de leitores, fortaleceu a cadeia produtiva, estimulou o surgimento de novos autores, seja via Concurso de Redação ou simplesmente pelo contato direto com os grandes nomes da literatura nacional e internacional que todo ano desembarcam na cidade”, explica Afonso Borges.

O Festival reuniu, no ano passado, quase 30 mil pessoas, em quatro dias de evento, com a presença de 120 autores. Turistas e moradores atraídos não só pela literatura, mas pelo “Fliaraxá Gastronomia” montado em grandes estruturas na área externa com Hotel, com uma programação musical diversificada e de bom gosto.

São parceiros institucionais desta edição: a Prefeitura Municipal de Araxá, a TV Integração, a TV Globo, a Câmara Brasileira do Livro, a Uniaraxá, a Academia Araxaense de Letras, o Sesi-MG, o Sesc-MG, o Senac-MG e o Sebrae-MG. A realização é da Associação Cultural Sempre um Papo, sob a coordenação geral da Rubim Produções.

Convidados Fliaraxá 2019

Entre os convidados para as mesas de debates da edição 2019 do Fliaraxá estão: Monja Coen, Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Conceição Evaristo, Talita Talibert, Simone Paulino, Elisa Ventura, Luiz Ruffato, Schneider Carpeggiani, Paulo Werneck, Jussara Santos, Lucas Guimaraens, Leila Ferreira, Carla Madeira, Daniella Zupo, Cris Guerra, Sergio Abranches, Heloisa Starling, Clóvis de Barros Filho, Vagner Fernandes, Ana Luisa Escorel, Marina Colasanti, Aline Bei, Alice Ruiz, Cristovão Tezza, Ignácio de Loyola Brandão, Edney Silvestre, Ricardo Linhares, Graziela Azevedo, Marco Luchesi, Antonio Carlos Secchin, Sergio Sá Leitão, Marcelo Matte, Marta Porto, Antônio Torres, Maria Valéria Rezende, Míriam Leitão, Antonio Prata, Alla Mitchell, Luiz Antonio Aguiar, Leo Cunha, Pedro Bandeira, Fe Liz, Lucrécia Leite, Marco Haurélio, Salatiel Silva, Renato Zupo, Cátia Lemos, Ana Clara Saso, Ana Elisa Xavier, Ana Paula Machado Kikuchi , Arahilda Gomes Alves, Augustto Cipriani, Birgit Yara Frey Riffel, Celeste Moura, Celso Alexandre De Souza Lima, Cesar Campos, Claudelir Clemente, Daniel Bicalho, Denise Arantes, Domingos Antunes, Dr. Bruno Barbosa Borges, Dr. Marcus Paulo, Edilson Rodrigues Palhares, Francisco Ilídio Ferreira Rocha, Glaura Teixeira Nogueira Lima, Heleno Álvares, Iara Rachid, Idelma Borges Costa, Janaína Silva, João Eurípedes Sabino, João Victor Oliveira, Josimar Dos Reis De Souza, Jovandir Batista, Juliana Rage, Karolina Cordeiro, Leni Nobre De Oliveira, Lilian Natal, Luiz Humberto França, Marcos Takeshi, Mariana Carneiro, Maurício Melo Junior, Mauro Maniglia, Melina Costa Verissimo, Paulo Martins, Pedro Gontijo, Priscila Serato, Dr. Almir Garcia Fernandes, Rafael Nolli, Renato Muniz B. Carvalho, Rodrigo Feres, Sarah Salerno, Steven Byrd, Vera Lúcia Dias, Vilma Cunha Duarte, Virmondes Afonso Ribeiro Junior, Walter Soares Dos Reis, Ludmila Garcia Ribeiro Nessralla, Tainá França Verona, Paulo Fernando Silveira. E muitos outros que estarão no Fliaraxá para autografar seus livros na “Estação de Autógrafos”.

Educação e Leitura:  o legado do Fliaraxá

O objetivo do Fliaraxá é o estimulo à leitura, principalmente entre as crianças e os jovens. É visível o crescimento do interesse pelo livro nesta faixa etária, retorno dado pelos professores, escolas e educadores de Araxá. Em 2018, aconteceram diversas atividades em colégios uma semana antes do início do evento. A receptividade foi tão positiva que este ano o “Pré-Fliaraxá” vai promover um verdadeiro “esquenta” nas escolas públicas e particulares da cidade, entre os dias 10 e 18 de junho,  em uma forma ativa de envolver a população e democratizar ainda mais o acesso à cultura.

A efervescência cultural ativa a economia criativa de Araxá. Numa verdadeira maratona, vão acontecer debates, palestras, oficinas, contação de histórias, rodas de leitores, saraus e doações de livros. Na outra ponta, leitores e ouvintes atentos de todas as idades, entre eles recuperandos da APAC em regime especial.

A 8a edição repleta de atrações

O 8o Fliaraxá dará continuidade às linhas traçadas com sucesso em suas edições anteriores: forte presença nas escolas, professores e pais, com interlocução junto ao poder público, na área de educação; uma imensa livraria, a cargo da Blooks, do Rio de Janeiro, que venderá também livros a preços reduzidos; a continuidade do concurso de redação ‘Maria Amália Dumont’; integração entre a história dos patronos e autores homenageados com os alunos e as escolas; e programação específica dirigida às crianças e adolescentes.

A área de Gastronomia, instalada na parte externa do Grande Hotel, vai ter, este ano, o acréscimo de conteúdo focado na culinária mineira e da região, em uma comunhão com a literatura. Um projeto vai alinhar a comida dos grandes clássicos com jantares/palestras. Estão na pauta também os queijos, doces e demais componentes da chamada Economia Criativa. Além disso, uma extensa e proveitosa programação de teatro e música.

Destaca-se também o projeto ‘Sempre Um Papo’, onde os escritores conversam descontraidamente com o público, em salas menores, durante uma hora por dia, fora da programação oficial; o ‘Fliaraxá Mirim’ vai construir atividades dedicadas às crianças na grama e arredores do Grande Hotel; o evento pretende também incentivar as agências a promover visitas guiadas às fazendas produtoras de queijo e cachaça na região e à Serra da Canastra, impulsionando a Economia Criativa da região. Além disso, vale ressaltar a presença institucional do Sesc, Senac, Sesi e Sebrae, com uma programação de cursos, workshops e conteúdo específico.

A Blooks, de Elisa Ventura, será novamente a livraria oficial do evento que, com mais de 30 mil títulos, se materializa como uma das maiores livrarias em extensão do País, em festivais. Ali será instalada a ‘Estação de Autógrafos’, que vai acolher um grande número de escritores a assinar suas obras.

Um pouco da história do Fliaraxá

O Fliaraxá foi criado em 2012 e sua 1a. edição teve como tema “Juventude, Literatura e Experiência”, com a presença de 25 autores, reunindo 6 mil pessoas. Em 2013, com o tema “A Viagem na Literatura”, a 2a. edição recebeu 44 autores e público de 8 mil pessoas. A 3a. mostra, em 2014, com o tema “Leitura para um Mundo Melhor”, somou 11 mil pessoas e presença de 40 autores. Em 2015, em sua 4a. edição, o tema foi “Imagina o Livro, Imagina a Cidade” e contou com 60 autores e 15 mil espectadores. Em 2016, na 5a. edição, com o tema “ O Amor, a Leitura e as Diferenças”, perto de 17 mil pessoas mil pessoas participaram do festival, com a presença de 70 convidados.

A 6a. edição do Fliaraxá marcou a mudança para o Tauá Grande Hotel de Araxá, edificação qualificada como Patrimônio Histórico Brasileiro. Com o tema “Língua, Leitura e Utopia”, o Festival recebeu 25.776 pessoas, 80 autores, oferecendo 125 atividades. Foi criado, também, na área externa do hotel, o ‘Fliaraxá Gastronomia’. Em 2018, mais de 27 mil pessoas, em plena Copa do Mundo, prestigiaram a 7a edição, com o tema “Alma, Leitura e Revolução” que contou com a presença de 120 autores.

Mais de 130 mil livros foram comercializados na livraria do Fliaraxá, em todas as edições. Autores de renome nacional e  internacional participaram do evento nestes sete anos ininterruptos de realização. Dentre eles, Mia Couto, José Luís Peixoto, Ondjaki, Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Gonçalo Tavares, Daniel Mordzinki, Milton Hatoum, Juan Pablo Villalobos, Ziraldo, Zuenir Ventura, Luis Fernando Verissimo, MV Bill, Adélia Prado, Amyr Klink e família, Ruy Castro, Heloisa Schurmann, Heloisa Seixas, Marcelo Yuka, Laura Muller, Marcia Tiburi, Leila Ferreira, Luiz Ruffato, Humberto Werneck, Mary Del Priore, Paula Pimenta, Roberto Carlos Ramos, Alberto Villas, Cris Guerra, Marcel Souto Maior, J. D. Vital, Evandro Affonso Ferreira, Dirceu Ferreira, Airton Ortiz, Leopoldo Brizuela, Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Carlos Herculano Lopes, Ana Elisa Ribeiro, Santiago Nazarian, Xico Sá, Carlos de Brito e Mello, Sérgio Abranches, Francisco Azevedo, Frei Betto, Marina Colasanti, Leonardo Boff, Mario Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho, Vladimir Safatle, Thalita Rebouças, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Mary e Eliardo França, Zack Magiezi, Sérgio Vaz, Nelson Motta, Laurentino Gomes, Miriam Leitão, Sérgio Rodrigues, Eduardo Spohr, Roberto Parmeggiani, José Pinho, Tatiana Salem Levy, William C. Gordon, J. Borges, Bruna Lombardi, Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Maia, Andrea Zamorano, Carlos Marcelo, Cristovão Tezza, Isabela Noronha, Lucrécia Zappi, Daniella Zupo, Paulo Scott, Roberto Lima, Pedro Muriel, Claudia Giannetti, Jô Oliveira, José Santos, Leo Cunha, Lucrécia Leite, Marco Haurélio, Marlette Menezes, Salatiel Silva, Selma Maria, Silvio Costta, Tiago de Melo Andrade, Philippe Lobjois, Monja Coen, Marcelo Rubens Paiva, José Miguel Wisnik, Wander Melo Miranda, Angela Alonso, Angela Castro, Heloísa Espada,  Ricardo Ramos Filho, Nilton Bonder, Heloisa Starling, Eugenio Bucci, Ilana Casoy, Cesar Bravo, Maria Paula Dallari Bucci, Ricardo Aleixo, Chico Mendonça, Carla Madeira, Jout Jout e Pedro Bandeira.
Araxá e o seu Grande Hotel

Famosa e acolhedora  estância  hidrotermal  e climática  mineira,  Araxá, com seus 104 mil habitantes, é  um atrativo turístico do Circuito das Cidades das Águas  Minerais do Estado. O Tauá Grande Hotel é procurado por visitantes do Brasil e do mundo para temporadas de descanso, repouso e tratamento.

Inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas, o Grande Hotel e Thermas de Araxá foi construído  como  complexo turístico e balneário no Barreiro, aprazível local distante dez quilômetros do centro de Araxá, geologicamente uma chaminé vulcânica onde afloram águas minerais sulforosas e radioativas e  jazidas de nióbio e apatita.

Serviço:   VIII Fliaraxá – Festival Literário de Araxá
De 19 a 23 de junho de 2019
Local: Tauá Grande Hotel Termas de Araxá
Rua Águas do Araxá, s/n – Barreiro, Araxá – MG
Redes Socias:
Instagram – @fliaraxa
Twitter – @fliaraxa

Link para fotos dos autores: https://bit.ly/2YeMRWg 

Informações para a imprensa:
Coordenação:  Jozane Faleiro – 31 992046367

Atendimentos:
Wandra Araújo: 31 999645007
Kerison Lopes – 31 991626935
Juliana Gola – 11 995952341

terça-feira, 21 de maio de 2019

Contar histórias, desfiar memórias



(Workshop com Marco Haurélio)

Contar histórias vai além do mero entretenimento. Uma das mais antigas expressões culturais da humanidade, a arte de contar histórias aproxima pessoas e cria laços afetivos que dificilmente serão rompidos com o tempo. Os velhos contos populares, sementes da tradição, nascidos não se sabe onde, trazidos não se sabe por quem, vivem na memória coletiva e ganham pontos nas vozes dos narradores-guardiões. Como identificar esses narradores, registrar e preservar as histórias? Marco Haurélio responderá a esta e a outras perguntas por meio de sua experiência como coletor e divulgador de centenas de contos e lendas brasileiras.


Marco Haurélio é escritor, professor e divulgador da literatura de cordel. Tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália, e outros tantos, selecionados em diversos programas de governo. Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, Meus romances de cordel, Lá detrás daquela serra e Contos e fábulas do Brasil. Como produtor cultural, é curador do projeto “Encontro com o cordel”. Em 2018, a convite do Institute for Heritage de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, participou do International Forum Narrator, representando o Brasil. Recebeu, desta mesma instituição, uma medalha de honra, por sua atuação como autor e divulgador das tradições populares.  


Quando? 30 de de maio de 2019 (das 10:00 às 11:45).

Onde? FAPCOM - Rua Major Maragliano, 191 - Vila Mariana, São Paulo (SP)

Inscrições: (11) 5087-3716 | eventos@paulus.com.br

Para se inscrever, clique AQUI. 

ATIVIDADE GRATUITA.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Cordel altamente recomendável



Uma boa notícia para mundo da Literatura de Cordel: o livro infantil O Encontro da Cidade Criança com o Sertão Menino (Editora do Brasil), lançado em meados de 2018, recebeu da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) o selo Altamente recomendável na categoria Poesia. A informação, em primeira mão, foi dada pelo editor Gil Vieira Sales. É o terceiro prêmio em pouco menos de um ano. O livro já havia recebido o selo Cátedra-Unesco da PUC-Rio e foi selecionado para compor o Catálogo FNLIJ da Feira do Livro Infantil de Bolonha, Itália. Ilustrada por Laerte Silvino, a história dos primos João e José e da vó Sinhana representa um reencontro com o Brasil interiorano, com suas festas tradicionais, costumes e brincadeiras.



Abaixo, três estrofes que abordam algo vivenciado por mim, nos meus anos de formação: a leitura de folhetos clássicos da Literatura de Cordel:

E, à luz fraca da candeia,
Ela lia os seus cordéis:
Histórias de cangaceiros,
Vaqueiros e coronéis
E de princesas amadas
Por cavaleiros fiéis.

Zé viajava nas asas
Do pavão misterioso,
E empunhava uma espada
Junto com João Corajoso,
Sentindo-se personagem
De um mundo maravilhoso.

Sua avó Sinhana era
A guardiã de um tesouro:
Histórias da tradição
Que valem mais do que ouro
E são, na boca do povo,
De valor imorredouro.
Marco Haurélio segundo Laerte Silvino. 

Outro título a receber o Altamente recomendável, desta vez na categoria "Reconto", é Tristão e Isolda em Cordel (SESI-SP Editora). Lançado no final de 2018, o livro também foi selecionado para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha pela FNLIJ.


Postagem atualizada em 2 de junho de 2019. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

VIAGEM DE RETORNO À CASA TOMBADA




Atenção, povo do conto, do canto, da letra e da voz! Em abril, estaremos de volta à Casa Tombada para mais uma imersão no maravilhoso mundo das narrativas tradicionais. 

Módulo 1

26/4
1) O vasto chão da cultura popular
Contos, mitos, ritos e lendas. Cantos, ensalmos, orações e romances. Superstições e costumes. O passado que não passa.

3/5
2) Conto popular: conceituação, origens, difusão e persistência
O que, afinal, vem a ser o conto popular? O que o distingue do conto literário? Podemos falar de uma origem comum do conto de tradição oral? Investigaremos as muitas correntes nascidas, principalmente, no século XIX, sob o influxo da descoberta do sânscrito, com a divulgação das ideias de Benfey, Max Muller e reação de Andrew Lang.

17/5
3) As mil faces do herói nos contos maravilhosos
A partir do conto do “Dragon slayer” (O matador de dragões – ATU 300), buscaremos as raízes históricas do mito do herói salvador. Tendo como ponto de partida o mito de Perseu e Andrômeda, passando por Apolo, vencedor de Python, Hércules, São Jorge, Tristão, Siegfried, entre outros, o herói que derrota monstro revive o grande drama mítico da humanidade: a luta da luz contra as trevas.

7/6
4) Comicidade e riso nos contos populares
O herói cômico, chamados por vezes d e anti-herói, aparece sob vários nomes, o maior comum deles, Pedro Malazarte (ou Malasartes). Mas pode ser João Grilo, Bertoldo, e também de Camões (Camonge) ou Bocage (Bocais). Till Eulenspiegel na Alemanha, Jean Machepied na França, Pedro de Urdemales na Espanha, Maestro Grillo na Itália, Nasrudim na Turquia, o personagem que vinga, por meio da astúcia, as injúrias e injustiças contra os desfavorecidos, tem mil e um nomes e número equivalente de truques. O contraponto feminino do trickster é a Maria Sabida, Maria Sutil [The Clever Peasant Girl, ATU 875], mais cerebral e menos cruel, respondendo com sagacidade ao despotismo real (que é, também, o despotismo masculino).

21/6
5) Narrativas pias populares: o legado de Oswaldo Elias Xidieh
Publicado em 1967, pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, Narrativas pias populares é o primeiro livro voltado exclusivamente aos contos religiosos. Calcadas nos evangelhos canônicos, mas, principalmente, na vasta literatura apócrifa e no lendário medieval, impregnadas pela religiosidade sincera e pela ausência de dogmas, as narrativas pias são, por assim dizer, a Bíblia do povo, levada pelas águas da tradição para longe da fúria dos concílios, bulas e editos. Especial atenção será dada ao mito de deus que caminha entre os homens. Por que “Deus” (Zeus, Odin, Viracocha, Jesus) desce à terra? Seria esta a origem dos contos do rei que, em trajes de mendigo, testa o coração de seus súditos?

SUGESTÕES DE LEITURA
• ALCOFORADO, Doralice. O conto mítico de Apuleio no imaginário baiano. In: Estudos em literatura popular. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2004.
• AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
• BRANDÃO, Théo. Seis contos populares do Brasil. Maceió: MEC-SEC-Funarte, Instituto Nacional do Folclore, ufal, 1982.
• CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
• CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.
• CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.
• COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.
• GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
• GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malasartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.
• HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.
• Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.
• O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.
• Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.
• NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.
• PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.
• PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
• ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.
• XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1967.

Quem é o professor?

Marco Haurélio é formado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Desde 2005, desenvolve um trabalho de recolha, catalogação, classificação e difusão de gêneros da tradição oral brasileira, com destaque para contos e cantos populares. Autor, pesquisador e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero. Foi curador do Espaço do Cordel e do Repente na Bienal de São Paulo em 2016 e 2018. Também é o idealizador e curador do projeto Encontro com o Cordel, realizado pelo SESC 24 de Maio. Profere palestras e ministra oficinas e cursos sobre o cordel e o conto popular em feiras, bienais e espaços culturais. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha e outros tantos, selecionados em diversos programas de governo. Em 2017, foi finalista do Prêmio Jabuti com a obra Cordéis de Arrepiar: Europa (IMEPH).

Para saber mais ou se inscrever, clique AQUI. 


segunda-feira, 25 de março de 2019

Cordel no Catálogo de Bolonha


Marco Haurélio, editor do blogue Cordel Atemporal, teve dois livros escritos em 2018 selecionados para compor o Catálogo da Fundação nacional do Livro Infantil e Juvenil para a Feira do Livro de Bolonha Itália, edição 2019. Os livros selecionados são os seguintes: Tristão e Isolda em cordel (SESI-SP Editora) e O Encontro da cidade criança com o sertão menino (Editora do Brasil). 

Abaixo, em inglês, as resenhas publicadas no Catálogo: 

O encontro da cidade criança com o sertão menino
Marco Haurélio. Illustrations by Laerte Silvino. Editora do Brasil. 32p.
ISBN 9788510068888
This cordel poem, illustrated with woodcuts, tells the story of José Silva and Joãozinho, two children with different lives. The first one lives in the country of Brazil, and the second lives in a big city. This friendship, full of strangeness between the children, shows the differences between the northeastern backwoods of Brazil and some big cities. (LW)

Tristão e Isolda em cordel
Marco Haurélio. SESI-SP. 96p. ISBN 9788550407944
The Celtic culture has given us many stories. Tristão e Isolda is an example of this legacy as a unique story from which romantic love imbibes these marks: a passionate hero, the magic power and the power of love. However, in addition to this well-known novel, we have a story built in the form of a Cordel Literature, a singular construction from the Brazilian popular culture. The work of Marco Haurélio translates into a poetic format this beautiful and secular love story. (VS)

quarta-feira, 20 de março de 2019

Projeto leva cordel, xilo e repente a escolas cearenses




Texto: Divulgação. 

Nos dias 28 de fevereiro, 21 e 22 de março de 2019 respectivamente o ‘Projeto Cordel com a Corda Toda na Escola’ estará presente nos municípios de Maracanaú, Canindé e Quixeramobim.

Com apoio da Secretaria Estadual da Cultura no ‘Programa Mais Infância’ a nova etapa do Projeto leva oficinas de xilogravura, lançamentos de livro e recitais a escolas públicas de municípios cearenses.

O projeto contempla o lançamento do livro “Viagem ao reino Encantado do Cordel” dos autores Klévisson Viana e Arlene Holanda com ilustrações impecáveis do xilogravador e escritor cratense Maércio Lopes Siqueira, bem como oficinas de xilogravuras com o mestre João Pedro do Juazeiro, cantoria de viola com o jovem repentista Guilherme Nobre e recitais com Francisco Melchíades, Paulo de Tarso, Rafael Brito e Evaristo Geraldo da Silva.

O projeto é 100% gratuito para as escolas e livros e apostilas do projeto serão doados para o acervo das escolas, bem como folhetos de Literatura de Cordel em formato tradicional. Na ocasião serão promovidos, também, exposição e feira de artigos relacionados à nossa cultura e poesia popular.

Serão realizadas diversas ações dedicadas ao gênero literário Cordel e às artes que com ele têm afinidades. Nesta etapa do ‘Projeto Cordel com a Corda Toda nas Escolas’ os coordenadores esperam contemplar cerca de 1000 crianças e educadores direto e indiretamente com oficinas, lançamentos, apresentações, recitais e livros produzidos dentro do projeto. 

A Escola Municipal José Belisário de Sousa em Maracanaú, as escolas São Francisco, Adauto Bezerra e Biblioteca Cruz Filho em Canindé e a Escola Agrícola Dep. Leorne Belém e E.E.M.T.I Cel Humberto Bezerra em Quixeramobim receberão palestras com Klévisson Viana e Arlene Holanda, autores do livro “Viagem ao reino Encantado do Cordel”, oficinas de xilogravura com o renomado gravurista João Pedro do Juazeiro, cantorias com Guilherme Nobre e recitais com diversos declamadores.


MANIFESTAÇÃO LITERÁRIA

O Ceará se perpetua como o maior polo produtor de Literatura de Cordel desde os longínquos tempos da Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte, posteriormente rebatizada de Lira Nordestina. A partir da década de 1990, essa produção se acentuou na capital do Estado, sobretudo após surgirem associações de poetas, trovadores e folheteiros, tais como o Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL), a Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (AESTROFE), entre outras, além da consolidada casa editorial Tupynanquim Editora e da Cordelaria Flor da Serra.

Com linguagem coloquial, a Literatura de Cordel é, hoje, vista como importante manifestação literária, pois é compreendida como uma das nossas primeiras manifestações poéticas em língua portuguesa, tendo origem na produção oral trovadoresca. Neste sentido, a Literatura de Cordel é cada vez mais aceita nas escolas, em programas governamentais e estudada pelas por universidades espalhadas em todo o mundo.

O “Projeto Cordel com a Corda Toda na Escola” é uma iniciativa da AESTROFE – Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará com recursos do Governo do Estado do Ceará, Secretaria Estadual da Cultura – SECULT dentro do programa “Mais Infância Ceará”.


Atendimento à imprensa:
Helena Félix – (85) 3217-2891 / 9 9675-1099  aestrofe@gmail.com
Arlene Holanda (85) 9 9725-4938 arleneholanda@gmail.com

domingo, 17 de março de 2019

Simbologia do Pavão Misterioso

O grande voo do Pavão Misterioso

 

O Pavão Misterioso em edição de Manoel Camilo dos Santos

O Romance do Pavão Misterioso, criado por José Camelo de Melo Resende, presumivelmente em 1923, e levado ao prelo com muitas modificações por João Melchíades, que assumiu a sua autoria, é o grande clássico do cordel brasileiro e, sem dúvida, o seu maior símbolo. O que chama a atenção na história é a hábil combinação dos motivos integrantes de contos novelescos e maravilhosos. O enredo gira em torno do amor devotado pelo jovem turco Evangelista à condessa grega Creusa (há que se atentar para a rivalidade histórica entre gregos e turcos como um ingrediente da trama):

 

Eu vou contar uma história

De um pavão misterioso

Que levantou voo na Grécia

Com um rapaz corajoso

Raptando uma condessa

Filha de um conde orgulhoso.

 

O retrato da princesa. 

Evangelista a “conhece” por meio de um retrato pintado por um hábil artista, presente de seu irmão mais velho, João Batista. A jornada do herói para conquistar a amada envolve um hábil “engenheiro”, que inventa um maquinismo voador, similar a um pavão, que pode pousar até no alto de uma palmeira, e, a um toque de botão, se transformar numa mala.

Entrelaçamentos

Os demais motivos também são familiares aos contos de tradição oral. O cativante episódio do retrato da jovem de rara beleza, pelo qual o rei (herói) se apaixona sem conhecê-la, é encontrado no conto O fiel João, dos Irmãos Grimm, e na versão brasileira Dom José, de Luís da Câmara Cascudo.

 

João Batista retirou

O retrato de uma mala

Entregou ao rapaz

Que estava de pé na sala

Quando ele viu o retrato

Quis falar tremeu a fala.

 

O isolamento da jovem por ordem do pai, o tal “conde orgulhoso” no Romance do Pavão, para preservar sua inocência ou evitar o cumprimento de uma profecia, como no mito grego de Dânae, é outro motivo recorrente e está presente no conto popular brasileiro O rei doente do mal de amores, recolhido por João da Silva Campos. No cordel O papagaio misterioso, de Luís da Costa Pinheiro, a princesa vive reclusa no palácio por estar fadada a casar-se com um rapaz plebeu. O herói que penetra numa fortaleza no bojo de um animal mecânico aparece na História de Carlos Magno, no capítulo dedicado ao “leão de ouro”, com o qual o paladino Roldão penetra na fortaleza de Tristeféa para resgatar a princesa Angélica, filha de Abderraman, seu grande inimigo, com quem se casará. O gatilho da história, aliás, também é um retrato de uma jovem de beleza inigualável que o herói adquirira junto a um mercador. A versão em cordel, de João Melchíades, pode ser uma das prováveis inspirações de José Camelo. 

As três noites no quarto da (o) amada(o) são constantes dos contos de encantamento. O truque, que equivale ao recurso Deus ex machina, com o qual o herói ludibria os soldados do conde, pegando a mala/Pavão no alto da palmeira, denuncia a origem oriental da história, encontrando similar num dos episódios do conto O cavalo encantado (também uma máquina voadora) das Mil e uma noites.  Há quem associe equivocadamente, no entanto, o enredo do Pavão Misterioso ao de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, por conta, talvez, da aproximação óbvia entre a ave mecânica e o tapete voador. Se há uma aproximação, essencialmente no motivo do rapto, esta se dá com o conto do Cavalo encantado, que, na tradição sufi, na história do príncipe Tambal, se transmuta num cavalo de madeira fabricado por um marceneiro, com botões que, girados em determinadas posições, elevavam-no ao ar, tal e qual no romance de cordel:

 

Evangelista subiu

Pôs um dedo no botão

Seu monstro de alumínio

Ergueu logo a armação

Dali foi se levantando

Seguiu voando o pavão.

 

Pavão Misterioso. Xilogravura de Lucélia Borges (matriz)

Não podemos apontar, com certeza, a origem da história, mas encontramos um enredo muito muito próximo no conto "O tecelão e o construtor de carruagens", do Panchatantra indiano. 

Simbologia

Para além dos motivos estruturantes da história, outro aspecto relevante é o simbolismo do pavão. Segundo uma tradição indiana, ele é a montaria de Buda e de divindades, como Kartikeya, deus da guerra. É também a ave de Krishna, que com ela se confunde. No Islamismo, representado de cauda aberta, é um símbolo do universo, da totalidade. Associado aos cem olhos do cão Argos, morto por Hermes, tornou-se, na mitologia grega, a ave de Hera, a deusa do casamento. Em se tratando do nosso cordel, apesar de muitos enxergarem em seu enredo elementos da ficção científica, o adjetivo “misterioso”, presente desde o título, ressalta seu complexo simbologia, ressaltada pela vigorosa composição musical do cearense Ednardo: “Tudo é mistério nesse seu voar”.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Lançamento: Contos e Lendas da Terra do Sol (Paulus)


Acaba de ser lançado, com o selo da Paulus Editora, o livro Contos e Lendas da Terra do Sol, escrito em parceria com Wilson Marques e ilustrado por Robson Araújo. Abaixo, um trecho da Introdução:

Este livro reúne contos populares e lendas ouvidos da boca do povo. Foram recolhidos na Bahia e no Maranhão, entre os anos de 2005 e 2013. Os exemplares da Bahia foram recolhidos por mim, Marco Haurélio, e os do Maranhão pelo escritor Wilson Marques. Há mais quatro contos provenientes de duas cidades do Ceará, com uma singularidade: os informantes, Arievaldo Viana e Djanira Feitosa são cordelistas. São todos, portanto, raros exemplos da riqueza da cultura popular brasileira, ainda viva em pleno século XXI. Fazem parte do grande acervo das tradições imemoriais, surgidas não se sabe quando, vindas não se sabe de onde.

O projeto nasceu da persistência de Wilson Marques, inspirado no livro Contos folclóricos brasileiros, publicado em 2010 pela Paulus Editora, que reuniu 36 narrativas populares resultantes de uma recolha que fiz no sertão baiano cinco anos antes. Em 2011, outra publicação, Contos e fábulas do Brasil, ampliava o repertório, com 69 narrativas. Decidimos que, além dos contos, o nosso livro reproduziria, ainda, um conjunto de lendas, algumas pouco conhecidas, como a do Pai do Mato ou a de Mena, a mulher-onça, e outras bastante difundidas, como é o caso da lenda da mandioca.

O título do livro também não oferece dificuldades no tocante à sua escolha. A Terra do Sol é o Nordeste, região cujos biomas predominantes, a caatinga e o cerrado, serviram de cenário para muitas sagas e alimentam ainda o imaginário de muitos contadores de histórias, que incluem, também, os poetas de cordel e os cantadores populares. O filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), é a referência mais óbvia, mas não a principal. Em 1912, o escritor Gustavo Barroso, um dos pioneiros no estudo do folclore brasileiro, publicou, sob o pseudônimo de João do Norte, a obra Terra de Sol, na qual reunia farta documentação sobre os usos e costumes do seu estado natal, o Ceará.

Para adquirir a obra, clique AQUI. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

120 anos de Luís da Câmara Cascudo



Republico este perfil que escrevi há alguns anos, homenageando nosso mais destacado folclorista que, no penúltimo dia do ano, completa 120 anos de nascimento. 


Perfil biográfico

No Brasil, à margem da cultura livresca, dos modelos de comportamento e de conduta importados, dos salões opulentos, da nobreza caricata, vicejou opulenta, portentosa, espantosa literatura oral, fazendo, muitas vezes, pela boca de uma única pessoa se manifestarem conhecimentos que remetem a civilizações há muito defuntas. Pode-se argumentar que apenas um retalho, ou, menos ainda, um fiapo das antigas tradições chega até nós. Mas não é pouco. Na contística popular do Nordeste brasileiro, por exemplo, é possível se escutar uma história que, em essência, é a mesma que os povos estabelecidos à margem do Nilo, no Egito, repetem há mais de 3.000 anos. As nossas orações aos santos, ligeiramente modificadas, em tempos de antanho, devem ter acalmado a fúria e comprado o obséquio de muitos deuses de incontáveis panteões. Dessa literatura oral a arte de um país que se pretende sério será sempre a maior tributária. E, para a sorte do Brasil, as tradições populares, além das vozes anônimas que a perpetuaram, tiveram um zeloso guardião. Seu nome? Luís da Câmara Cascudo.

Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, no dia 30 de dezembro de 1898, filho de Francisco Cascudo, militar que, no final da vida, dedicou-se ao comércio, e de Ana Maria da Câmara Pimenta, o futuro folclorista e historiador veio ao mundo pelas mãos habilidosas da parteira Bernardina Nery. Segundo depoimento de sua filha, Ana Maria Cascudo Barreto, “Luís tinha sido um sobrevivente das moléstias que acometeram seus irmãos. Maria Octávia e Antonio Haroldo faleceram em Caicó, onde o genitor era Delegado Militar. Já em Natal, Maria Severina, que trazia os olhos azuis paternos, morreu em 1903, com um ano e três meses. Todos sucumbiram da mesma enfermidade, crupe ou difteria”. O nome, que homenageia Luís IX, São Luís, rei de França, deve-se à promessa materna.

Apesar das restrições paternas que visavam resguardá-lo das moléstias que levaram seus irmãos, Cascudinho, como também ficou ternamente conhecido, do seu quarto, imaginava-se envolvido em muitas peraltices, como tomar banho frio e pescar no rio Potengi, que banha a cidade em que nasceu. Cursou Medicina em Salvador e no Rio de Janeiro, mas não concluiu o curso. Concluiu em 1928, o curso de Direito em Recife e o de Etnografia, na Faculdade de Filosofia do Rio Grande do Norte. Em 1929, casou-se com Dhália Freire, companheira de toda a vida. Desta união nasceram seus dois filhos: Fernando Luís e Ana Maria. Em 1921, publicou seu primeiro livro, Alma patrícia, um resumo biográfico sobre personagens de seu estado natal. A primeira grande contribuição aos estudos da Etnografia veio com a publicação, em 1939, de Vaqueiros e cantadores, verdadeiro inventário da poesia popular do Nordeste do Brasil, abrangendo desde a poesia tradicional de origem ibérica ao manancial de histórias trágicas e cômicas da rapsódia nordestina.

No campo da contística popular, sua obra mais famosa é Contos tradicionais do Brasil (1946), compêndio que reúne histórias ouvidas na infância junto à ama analfabeta, mas de inteligência vivaz, Luísa Freire, ou recolhidas junto aos tipos populares de seu estado. Não se opôs ao sistema de catalogação Aarne-Thompson, mas sugeriu uma nova divisão que contemplasse melhor sua recolha. O livro tem incontáveis edições no Brasil. Outra obra de destaque, Geografia dos mitos brasileiros (1948) reúne o vasto bestiário nacional e as assombrações, de origem variada, mostrando sua área de abrangência, as ocorrências em obras clássicas de todas as épocas, amparadas por uma inigualada erudição. Câmara Cascudo escreveu centenas de livros, além de artigos espalhados por revistas e jornais, cobrindo diversas áreas do conhecimento humano. Organizou, em 1954, um monumental Dicionário do Folclore Brasileiro, talvez sua obra mais importante, obrigatório para todos os que se debruçam sobre o que ele denominava “Ciência da psicologia coletiva”.

Luís da Câmara Cascudo nos deixou em 30 de julho de 1986, aos 87 anos. Sua obra continua a ser reeditada pela Global Editora e segue sendo estudada e difundida no Brasil e em outros países. Estudioso também da religião e dos costumes, foi alçado à condição de santo em 2007, no Simpósio Internacional dos Contadores de Histórias, ocorrido no Rio de Janeiro. A função a ele atribuída não poderia ser mais apropriada: São Cascudo, Padroeiro da Tradição.

Marco Haurélio

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

'O Encontro da Cidade Criança com o Sertão Menino' é premiado com o selo Cátedra-Unesco



O livro O Encontro da Cidade Criança com o Sertão Menino (Editora do Brasil) acaba de ser premiado com o selo SELEÇÃO da Cátedra Unesco (PUC-Rio), edição 2018. Quem me trouxe a boa nova foi o editor de literatura infantil e juvenil Gil Vieira Sales. O livro, ilustrado por Laerte Silvino, conta, em cordel, a história de dois primos, José Silva e João Wenceslau, o primeiro morador do sertão alagoano e o segundo, de São Paulo. Os dois ainda não se conhecem, pois o pai de João, filho da matriarca Sinhana, desde que arribou para o “sul”, ainda não havia retornado ao sertão. Ciúmes à parte, os meninos acabam construindo uma sólida amizade que durará toda a vida.
O trecho inicial apresenta um dos cenários da história, o sertão alagoano:

Vamos viajar agora
Para o sertão nordestino,
Num recanto de Alagoas,
Onde vivia um menino,
Criado por sua avó
Desde muito pequenino.

Zé Silva, menino esperto,
Nascido lá no sertão,
Num vilarejo no qual
Não tinha televisão,
Mas mesmo assim não faltavam
Brincadeira e diversão.

Menino muito aplicado,
Ele ia para a escola
Montado no Pouca-Prosa,
O seu jumento pachola,
E no retorno, à tardinha,
Brincava de jogar bola.

Subia nos umbuzeiros
E nadava nas lagoas,
Depois, quando anoitecia,
No sertão das Alagoas,
Ia ouvir a sua avó
Contar histórias das boas.

A Lapinha, tradição natalina ainda viva no sertão, não foi esquecida nesta viagem afetiva à infância:

João e o filho Joãozinho
Ouviram as lindas loas
Para o Menino Jesus,
Cantadas por almas boas,
Moradoras dos remotos
Recantos das Alagoas.

A luz fraca da candeia
Iluminava a varanda.
Lá fora muitas crianças
Dançavam linda ciranda,
Louvando a vida que segue,
A marcha que não desanda.

Devotos de Santos Reis
Cantavam com muita fé:
“– Ô de casa, ô de fora.
– Maria, vai ver quem é.
– São os cantadô de Reis.
Quem mandou foi São José.”.




A Editora do Brasil conta com mais dois livros premiados na mesma categoria. São eles: Tinha um livro no meio do caminho, de Rosana Rios e Ana Matsusaki, e Uma casa para dez, de Caio Riter e Graça Lima.

Cabe, aqui, um agradecimento especial à amiga Penélope Martins, que me apresentou ao Gil, o que resultou na publicação do livro ora premiado.