quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Roberto Carlos na Literatura de Cordel






Por MARCO HAURELIO*

A polêmica desencadeada pela proibição, na Justiça, do livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César Araújo, revelou que sob os raios fúlgidos da pátria, a liberdade sorri para poucos. É a ditadura econômica, de que fala Chico Buarque, para a cultura bem mais nociva que a dos milicos. Por falar em ditadura e em Roberto Carlos, retornemos a 1965, mais precisamente a Osasco, grande São Paulo. Nesta cidade, antes de uma apresentação no cinema Rex (do latim: rei), encontraremos Roberto saudoso de uma namorada que, naquele momento, estava bem longe, nos States. O ruído provocado pelo dial de uma estação de rádio manipulado por sua secretária, Edy Silva, sugeriu uma melodia. E assim nasceu o refrão: “quero que você me aqueça neste inverno e que tudo mais vá pro inferno”. Com a providencial ajuda de Erasmo Carlos, a música estourou nos quatro cantos do país.
Vamos agora ao Nordeste brasileiro, a bordo de um velho ônibus, saído de Maceió com destino a Aracaju, no qual viajava o poeta popular Enéias Tavares dos Santos conduzindo uma mala repleta de folhetos de cordel e bugigangas diversas. Ao lado do poeta um rádio repetia a imprecação em forma de canção do então rei da juventude, nascida naquela noite fria em Osasco, de que falamos há pouco. O poeta ficou atento apenas ao refrão. Quando saltou na capital sergipana, estava pronto, faltando apenas passar para o papel, o folheto A Carta do Satanás a Roberto Carlos. Na fabulação de Enéias, cansado de ouvir o cantor mandar tudo para o inferno, Satanás resolve escrever-lhe uma carta, tentando demovê-lo da idéia:

Inferno, corte das trevas,
Meu grande amigo Roberto,
Eu vi o seu novo disco
É muito bonito, é certo,
Mas cumprindo a sua ordem,
O mundo fica deserto.

E o soberano das trevas faz mais este apelo ao ídolo da jovem guarda:

Tem feito muito sucesso
Essa sua gravação
Mas eu já sofri até
Ataque do coração
Porque aqui no inferno
É de fazer compaixão.

Se para aqui vier tudo
Eu fico muito apertado
Pois o inferno já está
Por demais superlotado,
Você ganhando dinheiro
E eu ficando aqui lascado.

Importante é notar a ressignificação da música na interpretação do poeta popular. O cordel fez tanto sucesso que possibilitou a Enéias “pôr em dia os atrasados”, conforme depoimento ao poeta João Gomes de Sá. Negociado com a Editora Prelúdio, hoje Luzeiro, este folheto é editado ininterruptamente há mais de 40 anos. No seu rastro vieram a lume mais três títulos, todos de Manoel D’Almeida Filho: A Resposta de Roberto Carlos a Satanás; A Chegada de Roberto Carlos no Céu e Roberto Carlos no Inferno. Convém notar que, no inferno, as diabas se comportam como as jovens admiradoras do “rei” em sua corte terrestre:

As diabas moças gritavam
Como que ficaram loucas,
Todas pediam autógrafos,
De gritar ficaram roucas,
Porque não havia força
Que calasse aquelas bocas.




Mais conservador é Apolônio Alves dos Santos, autor do folheto A Mulher que Rasgou o Travesseiro e Mordeu o Marido Sonhando com Roberto Carlos. Outro grande poeta, Joaquim Batista de Sena, lamenta as mudanças ocorridas na Igreja Católica, imputando-as a Roberto e seus seguidores:

Vou chamar primeiramente
O grande rei do hippysmo
O senhor Roberto Carlos
Com todo seu cafonismo
Pois ele foi quem mudou
A lei do cristianismo.

A bibliografia sobre Roberto Carlos no Cordel é extensa e reflete a mentalidade do autor, com enfoque ora conservador ora liberal, indo do satírico à estória de exemplo. Manoel D’Almeida, por exemplo, era consultor da Editora Prelúdio, que além da boa literatura de cordel, editava a Melodias, a revista da mocidade, na qual Roberto era figurinha carimbada. Daí o tratamento simpático dispensado ao cantor capixaba. Joaquim Batista de Sena, por outro lado, refletia a mentalidade sertaneja, refratária a mudanças, especialmente as ocorridas no seio da Igreja.


Marco Haurélio é poeta popular, pesquisador e assessor da editora NOVA ALEXANDRIA. Também já atuou como selecionador de textos da Editora Luzeiro.

Nota: Este artigo, escrito em 2006 e publicado na revsita digital Music News, foi repercutido no blog Acorda Cordel, do poeta Arievaldo Viana.

De Volta à Terra de Iracema

Bule-Bule, Dulce, Mestre Azulão e Rouxinol do Rinaré
Dia 16 de setembro estarei em Fortaleza, como convidado, participando da Feira do Livro Infantil. No mesmo dia, serão lançados os livros Contos e Fábulas do Brasil (Nova Alexandria) e As Babuchas de Abu Kasem (Conhecimento). Dois livros da coleção Clássicos em Cordel também serão lançados neste dia: O Príncipe e o Mendigo (de Paiva Neves) e Canaã (de Geraldo Amâncio).

As imagens que ilustram a postagem são do ano de 2008, quando participei da Bienal do Livro de Fortaleza.

Rouxinol, Chico Salles e Arievaldo Viana
Com Klévisson Viana em palestra sobre vida
e obra dos mestres do cordel
Com Geraldo Amâncio, Zé Maria de Fortaleza,
seu Cortez e Klévisson Viana 
Evaristo Geraldo, Rouxinol e Serra Azul, o Piúdo


SOBRE A FEIRA


A II Feira do Livro Infantil de Fortaleza será realizada de 14 a 17 de setembro de 2011, na Praça do Ferreira, principal centro de movimentação popular na capital cearense. Fortalecer o mercado editorial brasileiro e fomentar o Livro, a Leitura e a Literatura são os principais objetivos desta feira.
A novidade para este ano é o Visita Cultural Coelce, projeto destinado a crianças de escolas públicas. As escolas agendadas receberão um ônibus para ida e vinda à feira, lanche e 1 Vale leitura para cada criança trocar por um livro de sua escolha em qualquer estande.
O público estimado é de 60.000 pessoas prestigiando a programação do evento e garantindo bons negócios na compra de livros. Nesta feira teremos descontos especiais de até 30% no comércio dos livros ,conforme política pré-estabelecida pela organização do evento. Informamos ainda que os assinantes do jornal Diário do Nordeste terão 15% de desconto nos lançamentos da Feira.
 Buscamos realizar um evento mais popular e com preços mais acessíveis à população em geral.
A programação cultural que acontecerá constantemente durante todo o dia, é um diferencial e atrativo aos fortalezenses e visitantes. Programa Leituras Favoritas, Leituras Engraçadas, encontro com autores, workshops e shows para toda a família, uma programação planejada com muito respeito aos visitantes deste evento literário.
 A II Feira do Livro Infantil de Fortaleza tem a realização da Casa da Prosa; patrocínios: Ministério da Cultura, Coelce, Endesa Fortaleza, SECULTFOR; Apoio: CAGECE, Centro Cultural Banco do Nordeste, Instituto Nordeste Cidadania; Parcerias: Prisma de Artes e Museu Siará em Miniatura.