sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cordéis atemporais: Os Martírios de Genoveva


Cordel publicado pela Luzeiro. Capa: Adelmo
Leandro Gomes de Barros escreveu um romance em versos que tinha como tema principal a virtude feminina. Os sofrimentos de Alzira é um dos principais poemas dramáticos do mestre maior do cordel, praticamente uma versão não creditada da História da Imperatriz Porcina, cuja origem remonta à Idade Média, e tem por base a lenda de Crescência. O êxito de Leandro permitiu que outros poetas trabalhassem enredos parecidos. Seu compadre Francisco das Chagas Batista, por exemplo, adaptou, a partir do poema do cego português Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo de D. Manoel, o Venturoso, o drama de Porcina.

Genoveva von Brabant in einer Höhle.jpg
Pintura anônima do século XVIII,
 retratando a heroína da lenda piedosa. 
Os martírios de Genoveva, do pioneiro José Galdino da Silva Duda, atribuído algumas vezes a Leandro, graças a uma falha bisonha das herdeiras do editor José Bernardo da Silva, baseia-se na popular lenda de Genoveva de Brabante, que forneceu matéria abundante a muitos escritores, desde o século XII. A oposição bem-mal, com o triunfo da virtude, é o eixo em torno do qual gira a trama:

            Nesta história se vê
            A virtude progredir,
            A verdade triunfar,
            O mal se submergir,
            A honra salientar-se,
            A falsidade cair.

Para se ter uma ideia da importância do tema elencamos alguns romances:  História da princesa Rosa, de Silvino Pirauá de Lima; História de Cecília Afra: três suspiros de uma esposa, de Theodoro Ferraz da Câmara; Bernardo e D. Genevra, de José Galdino da Silva Duda; História de Rosa de Milão, do mesmo autor, e Os sofrimentos de Célia, de Manoel Pereira Sobrinho. O filho mais ilustre deste ciclo da mulher virtuosa é, sem dúvida, o romance O assassino da honra e a louca do jardim, antigo drama de circo recriado por Caetano Cosme da Silva.

Filme de 1964, dirigido por José Luis Monter.

A lenda, ambientada no século VIII, embora guarde semelhança com a vida de Maria da Baviera, do século XIII, é motivo inspirador de uma ópera, Genoveva de Brabante, em quatro atos de Robert Schumann baseada em um libreto do compositor Robert Reinick, de 1850, peça que apresenta muitas similaridades com a Lonhengrin, de Richard Wagner. No cinema, a lenda de Genoveva também foi recontada algumas vezes, como, por exemplo, na produção hispano-italiana de 1964, dirigida, em 1964, por José Luis Monter. Outra produção italiana de 1947, dirigida por Primo Zeglio, atesta a grande popularidade da lenda imortalizada também pela literatura de cordel dos dois lados do Atlântico.







O autor de Genoveva

José Galdino da Silva Duda, mais conhecido como Zé Duda, famoso cordelista e, sobretudo, cantador, nasceu em 1866, em Cabaceiras (PB) e faleceu em 1931, em Recife (PE). Foi um filho enjeitado, encontrado e criado como filho por um sitiante. Antes de se tornar cantador afamado, foi almocreve e comboieiro. De um encontro com o então jovem cantador Severino Lourenço da Silva Pinto, o mitológico Pinto do Monteiro, Zé Duda, pernambucano por adoção, deixou esta maravilhosa sextilha, que lhe poderia servir de epitáfio:

Quando vazar a notícia
Que José Duda morreu,
Pernambuco há de dizer
Que a semente se perdeu
E a Paraíba não bota
Outro Duda como eu.

Litogravura de Gines Ruiz: Genoveva na selva

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