quarta-feira, 19 de março de 2025

Dimas, o bom ladrão

Dimas, o bom ladrão em edição da Luzeiro

O amplo guarda-chuva do cordel abriga duas lendas religiosas, as quais, aparecendo em evangelhos apócrifos, difundiram-se pelo Nordeste, além da tradição oral, na literatura popularesca. São elas Dimas, o bom ladrão e O Judeu Errante, versadas, respectivamente, por Francisco das Chagas Batista e Severino Borges Silva.

Dimas é retratado como um salteador anônimo no Evangelho de São Lucas (23:39-43). O nome com que foi imortalizado surge pela primeira vez na versão grega do pseudoepígrafo Evangelho de Nicodemos, do século IV. Já o “mau ladrão” é nomeado Gesta apenas na versão latina do Evangelho de Nicodemos, rebatizada como Atos de Pilatos. O Evangelho árabe da infância de Jesus narra o encontro do Menino-Deus com dois facínoras, chamados Tito e Dumachus, e a previsão de que, trinta anos depois, ele será crucificado entre os dois. As tradições mais antigas apontam o Bom Ladrão como egípcio de nascimento, e não judeu, atuando impiedosamente no deserto, na fronteira de seus país com a Palestina.

O romance de cordel se baseia numa fonte mais recente, o monumental romance O mártir do Gólgota, do espanhol Enrique Pérez Escrich (1829-1897). Lá estão os episódios mais emocionantes: a morte do pai de Dimas, o duro golpe aplicado pelo fariseu, a prisão do jovem e sua vingança, o encontro com a Sagrada Família na fuga para o Egito e sua morte gloriosa no Calvário, sendo o primeiro a receber, concedida pelo próprio Cristo, a salvação eterna. Assim se inicia este clássico inconteste:

 

Trato na biografia

de Dimas, o Bom Ladrão

de se fazer assassino

qual a sua precisão

Como morreu e salvou-se

teve de Deus o perdão.

 

Era filho dum ourives

que havia em Jerusalém

moço versado nas letras

e bom ourives também

graças a seu pai honrado

que lhe desejava o bem.

 

Era obediente aos pais,

aos mais velhos respeitava

cariciava as crianças

e aos mortos enterrava

Naquela alma de Deus

caridade não faltava (Chagas Batista, 1991, p. 1).

Um detalhe a ser levado em conta, na história, é o desespero de Dimas ao saber que o seu pai não terá direito a uma sepultura, não somente pela humilhação de ver o cadáver do pai devorado por feras, mas também pelo medo de que sua alma não alcançasse o descanso eterno. Tradições muito antigas, de povos diversos, mostram as graves consequências quando os mortos não recebem as honras do velório e a piedade do túmulo. No cordel e no romance de Perez Escrich, Dimas, sedento de vingança, cogita exumar os restos do fariseu causador de sua desgraça, porém, depois de refletir, desiste desse ato insano por prever as represálias.

No imaginário poético do Nordeste, Dimas foi associado a Lampião da mesma forma que Roberto do Diabo também o foi. O arquétipo do bandoleiro que se redime, ainda que no último momento, não é a interface mais importante. O fato de Dimas comandar um bando armado, levando terror aos que cruzavam seu caminho, assim como ocorria com os cangaceiros no Nordeste, é o principal elo com o Lampião mitologizado. Virgulino teve o pai, José Ferreira, assassinado pelas forças legais (volantes), e jurou vingança contra os assassinos; também se escondia numa “fortaleza”, segundo Chagas Batista, autor de um poema chamado Os decretos de Lampião, composto na década de 1920. Ruth Terra (1983, p. 104) cita, do mesmo autor, O marco de Lampião, no qual se informa que as terras do cangaceiro se estendiam por todo o sertão:

 

Lampião com o seu grupo

Para bem longe arribou,

E na serra do Araripe,

Uma fortaleza achou

Toda feita de granito

Em um lugar esquisito

Onde ele se arranchou (Chagas Batista, 1977, p. 238).

Marco é uma fortaleza imaginária, inviolável, guarnecida por animais gigantescos e seres mitológicos. Muitos poetas, abusando das hipérboles, ergueram marcos pretensamente intransponíveis, ao passo que outros se dedicaram a calcar por terra tais prodígios poéticos de seus adversários. Quaderna, protagonista do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, também sonhando edificar um castelo, mesclando o vivido com o sonhado, recorre ao poeta João Melchíades, convertido em personagem da epopeia sertaneja, para tal empresa:

 

“É que os Cantadores, assim como faziam Fortalezas para os Cangaceiros, construíam também, com palavras e a golpe de versos, Castelos para eles próprios, uns lugares pedregosos, belos, inacessíveis, amuralhados, onde os donos se isolavam orgulhosamente, coroando-se Reis, e que os outros cantadores, nos desafios, tinham a obrigação de assediar, tentando destruí-los palmo a palmo, à força de audácia e de fogo poético. Os Castelos dos poetas e Cantadores chamavam-se, indiferentemente, Fortalezas, Marcos e Obras (Suassuna, 2017, p. 112)”.

Encontramos, no Mártir do Gólgota, menção à fortaleza/marco de Dimas, cujas pedras, transportadas para o Nordeste, ensejaram a edificação do marco de Lampião:


“Sobre o alto cume do monte Hebal, suspenso junto dum profundo precipício, como o ninho duma águia, erguiam os seus negros e toscos muros de um castelo de pobre e tétrica arquitetura. Aquela sombria fortaleza, levantada ali pela mão atrevida dos cuteus depois da dominação dos assírios, achava-se habitada na época de Herodes por uma quadrilha de malfeitores (Escrich, [1866?], p. 21)”.

No folheto, a descrição ganha proporções épicas, por ser o texto balizado não somente no romance, mas também no imaginário que se ia construindo em volta do banditismo “social” do Nordeste desde os tempos de Antônio Silvino, ou mesmo antes.

 

Esses ladrões assistiam

no cume do monte Hebal

lá tinha uma fortaleza

ou um castelo afinal,

era um lugar solitário

duma altura colossal (Chagas Batista, 1991, p. 12).

O drama do Calvário, única passagem do cordel e do romance de Escrich diretamente relacionada aos evangelhos canônicos, encerra a jornada de queda e redenção de Dimas:

 

Estando Jesus cravado

ouviu dum lado uma voz.

Era Gesta que falava

desesperado e feroz

dizendo: — Se és o Cristo

salva a ti e a nós!

 

Dimas, que estava à direita

do Cordeiro Paciente

ouviu o que Gesta dizia

repreendeu seriamente

dizendo: — Nós dois devemos,

mas ele está inocente.

 

Lembrando-se dos seus feitos

antes de ver o seu fim

arrependeu-se de tudo

e disse a Jesus assim:

— Lá no vosso paraíso

lembrai-vos, Senhor, de mim.

 

Estava chegando o tempo

profetizado e preciso

de Jesus recompensá-lo

e, cheio de graça e riso,

respondeu: Hoje estarás

comigo no paraíso

 

Minutos depois, Jesus

por nós na cruz faleceu.

Dimas, do lado direito,

dessa vez também morreu.

Dimas morreu e salvou-se,

Gesta foi quem se perdeu (Ibid., p. 40).

Varazze, ao historiar a Paixão de Cristo, faz uma única menção aos dois salteadores:

 

“A Paixão também foi ignominiosa devido à companhia de celerados, no caso, ladrões. Um deles, Dimas, que estava à sua direita, mais tarde converteu-se, segundo o EVANGELHO DE NICODEMO, enquanto o que estava à esquerda, chamado Gesmas (sic), foi condenado. A um, Ele deu o reino, a outro, o suplício (Varazze, 2003, p. 319)”.

A história de Dimas não aparece catalogada no Sistema ATU. Contudo, Isabel Cardigos e Paulo Correia classificam-na como Car-Co *750 (O Bom Ladrão e o Menino Jesus na fuga para o Egito). Todos os subtipos do ATU 750 vinculam-se a castigos e recompensas. Na tradição oral brasileira, apenas uma versão fiel ao tema foi registrada, por Oswaldo Elias Xidieh (1967), “Os dois ladrões”, na qual o nome de Dimas, que convence seus companheiros a não tomar o burro que conduzia a Sagrada Família para o Egito, é mencionado. O segundo encontro com Jesus, “no monte Calvário”, também é descrito muito brevemente, talvez por já ser amplamente conhecido no devocionário popular.

 

Referências

CHAGAS BATISTA, Francisco das. História de Dimas, o bom ladrão. Juazeiro do Norte: Biblioteca Nacional do Cordel, 1991.

CHAGAS BATISTA, Francisco das. O marco de lampião. In: CHAGAS BATISTA, Francisco das.  Literatura popular em verso: antologia, tomo IV. Brasília: Ministério da Educação e Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977.

ESCRICH, Enrique Pérez. O mártir do Gólgota: tradições do oriente. Tradução: António Moreira Bello. Porto: Companhia Portuguesa Editora, [1866?].

IUMATTI, Paulo Teixeira. Cantos de guerra: cantadores negros e as disputas em torno do gênero do Marco (1870-1930). São Paulo: Alameda, 2020.

SUASSUNA, Ariano. Romance da pedra do reino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea: vidas de santos. Tradução: Hilário Franco Júnior. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Excerto da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel / Marcus Haurélio Fernandes Farias. – Campinas, SP : [s.n.], 2024.

Para acessar o texto na íntegra, clique A Q U I.




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