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Dimas, o bom ladrão em edição da Luzeiro |
O amplo guarda-chuva do cordel abriga duas lendas religiosas, as quais, aparecendo em evangelhos apócrifos, difundiram-se pelo Nordeste, além da tradição oral, na literatura popularesca. São elas Dimas, o bom ladrão e O Judeu Errante, versadas, respectivamente, por Francisco das Chagas Batista e Severino Borges Silva.
Dimas é retratado como um salteador anônimo no
Evangelho de São Lucas (23:39-43). O nome com que foi imortalizado surge pela
primeira vez na versão grega do pseudoepígrafo Evangelho de Nicodemos,
do século IV. Já o “mau ladrão” é nomeado Gesta apenas na versão latina do Evangelho
de Nicodemos, rebatizada como Atos de Pilatos. O Evangelho árabe
da infância de Jesus narra o encontro do Menino-Deus com dois facínoras,
chamados Tito e Dumachus, e a previsão de que, trinta anos depois, ele será
crucificado entre os dois. As tradições mais antigas apontam o Bom Ladrão como egípcio
de nascimento, e não judeu, atuando impiedosamente no deserto, na fronteira de
seus país com a Palestina.
O romance de cordel se baseia numa fonte mais
recente, o monumental romance O mártir do Gólgota, do espanhol Enrique
Pérez Escrich (1829-1897). Lá estão os episódios mais emocionantes: a morte do
pai de Dimas, o duro golpe aplicado pelo fariseu, a prisão do jovem e sua
vingança, o encontro com a Sagrada Família na fuga para o Egito e sua morte
gloriosa no Calvário, sendo o primeiro a receber, concedida pelo próprio
Cristo, a salvação eterna. Assim se inicia este clássico inconteste:
Trato na
biografia
de Dimas, o
Bom Ladrão
de se fazer
assassino
qual a sua
precisão
Como morreu
e salvou-se
teve de
Deus o perdão.
Era filho
dum ourives
que havia
em Jerusalém
moço
versado nas letras
e bom
ourives também
graças a
seu pai honrado
que lhe
desejava o bem.
Era
obediente aos pais,
aos mais
velhos respeitava
cariciava
as crianças
e aos
mortos enterrava
Naquela
alma de Deus
caridade não faltava (Chagas Batista, 1991, p. 1).
Um detalhe a ser levado em conta, na história, é o desespero de Dimas ao saber que o seu pai não terá direito a uma sepultura, não somente pela humilhação de ver o cadáver do pai devorado por feras, mas também pelo medo de que sua alma não alcançasse o descanso eterno. Tradições muito antigas, de povos diversos, mostram as graves consequências quando os mortos não recebem as honras do velório e a piedade do túmulo. No cordel e no romance de Perez Escrich, Dimas, sedento de vingança, cogita exumar os restos do fariseu causador de sua desgraça, porém, depois de refletir, desiste desse ato insano por prever as represálias.
No imaginário poético do Nordeste, Dimas foi
associado a Lampião da mesma forma que Roberto do Diabo também o foi. O arquétipo
do bandoleiro que se redime, ainda que no último momento, não é a interface
mais importante. O fato de Dimas comandar um bando armado, levando terror aos
que cruzavam seu caminho, assim como ocorria com os cangaceiros no Nordeste, é o
principal elo com o Lampião mitologizado. Virgulino teve o pai, José Ferreira,
assassinado pelas forças legais (volantes), e jurou vingança contra os
assassinos; também se escondia numa “fortaleza”, segundo Chagas Batista, autor
de um poema chamado Os decretos de Lampião, composto na década de 1920.
Ruth Terra (1983, p. 104) cita, do mesmo autor, O marco de Lampião, no
qual se informa que as terras do cangaceiro se estendiam por todo o sertão:
Lampião com
o seu grupo
Para bem longe
arribou,
E na serra
do Araripe,
Uma
fortaleza achou
Toda feita
de granito
Em um lugar
esquisito
Onde ele se arranchou (Chagas Batista, 1977, p. 238).
Marco é
uma fortaleza imaginária, inviolável, guarnecida por animais gigantescos e
seres mitológicos. Muitos poetas, abusando das hipérboles, ergueram marcos
pretensamente intransponíveis, ao passo que outros se dedicaram a calcar por
terra tais prodígios poéticos de seus adversários. Quaderna, protagonista do Romance
da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, também sonhando edificar um castelo,
mesclando o vivido com o sonhado, recorre ao poeta João Melchíades, convertido
em personagem da epopeia sertaneja, para tal empresa:
“É que os Cantadores, assim como faziam Fortalezas para os Cangaceiros, construíam também, com palavras e a golpe de versos, Castelos para eles próprios, uns lugares pedregosos, belos, inacessíveis, amuralhados, onde os donos se isolavam orgulhosamente, coroando-se Reis, e que os outros cantadores, nos desafios, tinham a obrigação de assediar, tentando destruí-los palmo a palmo, à força de audácia e de fogo poético. Os Castelos dos poetas e Cantadores chamavam-se, indiferentemente, Fortalezas, Marcos e Obras (Suassuna, 2017, p. 112)”.
Encontramos, no Mártir do Gólgota, menção à fortaleza/marco de Dimas, cujas pedras, transportadas para o Nordeste, ensejaram a edificação do marco de Lampião:
“Sobre o alto cume do monte Hebal, suspenso junto dum profundo precipício, como o ninho duma águia, erguiam os seus negros e toscos muros de um castelo de pobre e tétrica arquitetura. Aquela sombria fortaleza, levantada ali pela mão atrevida dos cuteus depois da dominação dos assírios, achava-se habitada na época de Herodes por uma quadrilha de malfeitores (Escrich, [1866?], p. 21)”.
No folheto, a descrição ganha proporções épicas, por
ser o texto balizado não somente no romance, mas também no imaginário que se ia
construindo em volta do banditismo “social” do Nordeste desde os tempos de
Antônio Silvino, ou mesmo antes.
Esses
ladrões assistiam
no cume do monte
Hebal
lá tinha
uma fortaleza
ou um
castelo afinal,
era um
lugar solitário
duma altura colossal (Chagas Batista, 1991, p. 12).
O drama do Calvário, única passagem do cordel e do
romance de Escrich diretamente relacionada aos evangelhos canônicos, encerra a
jornada de queda e redenção de Dimas:
Estando
Jesus cravado
ouviu dum
lado uma voz.
Era Gesta
que falava
desesperado
e feroz
dizendo: —
Se és o Cristo
salva a ti
e a nós!
Dimas, que
estava à direita
do Cordeiro
Paciente
ouviu o que
Gesta dizia
repreendeu
seriamente
dizendo: —
Nós dois devemos,
mas ele
está inocente.
Lembrando-se
dos seus feitos
antes de
ver o seu fim
arrependeu-se
de tudo
e disse a
Jesus assim:
— Lá no
vosso paraíso
lembrai-vos,
Senhor, de mim.
Estava
chegando o tempo
profetizado
e preciso
de Jesus
recompensá-lo
e, cheio de
graça e riso,
respondeu: — Hoje estarás
comigo no
paraíso
Minutos
depois, Jesus
por nós na
cruz faleceu.
Dimas, do
lado direito,
dessa vez
também morreu.
Dimas
morreu e salvou-se,
Gesta foi quem se perdeu (Ibid., p. 40).
Varazze, ao historiar a Paixão de Cristo, faz uma
única menção aos dois salteadores:
“A Paixão também foi ignominiosa devido à companhia de celerados, no caso, ladrões. Um deles, Dimas, que estava à sua direita, mais tarde converteu-se, segundo o EVANGELHO DE NICODEMO, enquanto o que estava à esquerda, chamado Gesmas (sic), foi condenado. A um, Ele deu o reino, a outro, o suplício (Varazze, 2003, p. 319)”.
A história de Dimas não aparece catalogada no
Sistema ATU. Contudo, Isabel Cardigos e Paulo Correia classificam-na como
Car-Co *750 (O Bom Ladrão e o Menino Jesus na fuga para o Egito). Todos
os subtipos do ATU 750 vinculam-se a castigos e recompensas. Na tradição oral
brasileira, apenas uma versão fiel ao tema foi registrada, por Oswaldo Elias Xidieh
(1967), “Os dois ladrões”, na qual o nome de Dimas, que convence seus
companheiros a não tomar o burro que conduzia a Sagrada Família para o Egito, é
mencionado. O segundo encontro com Jesus, “no monte Calvário”, também é
descrito muito brevemente, talvez por já ser amplamente conhecido no
devocionário popular.
Referências
CHAGAS
BATISTA, Francisco das. História de Dimas, o bom ladrão. Juazeiro do
Norte: Biblioteca Nacional do Cordel, 1991.
CHAGAS
BATISTA, Francisco das. O marco de lampião. In: CHAGAS BATISTA, Francisco
das. Literatura popular em verso:
antologia, tomo IV. Brasília: Ministério da Educação e Cultura; Rio de Janeiro:
Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977.
ESCRICH,
Enrique Pérez. O mártir do Gólgota: tradições do oriente. Tradução:
António Moreira Bello. Porto: Companhia Portuguesa Editora, [1866?].
IUMATTI, Paulo Teixeira. Cantos de guerra:
cantadores negros e as disputas em torno do gênero do Marco (1870-1930). São
Paulo: Alameda, 2020.
SUASSUNA, Ariano. Romance da pedra do reino.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea: vidas de santos. Tradução: Hilário Franco Júnior. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Excerto da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel / Marcus Haurélio Fernandes Farias. – Campinas, SP : [s.n.], 2024.
Para acessar o texto na
íntegra, clique A Q U I.
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