sexta-feira, 18 de março de 2011

Meus Romances de Cordel, 9 de abril na Cortez



Sábado, 9 de abril, com a presença de vários amigos cordelistas, será lançado na Livraria Cortez o livro Meus romances de cordel. Apresentado pela Professora Vilma Mota Quintela, a obra reúne sete trabalhos escritos ao longo de vinte anos de labuta poética. São eles: O Herói da Montanha Negra, História de Belisfronte, o Filho do Pescador, Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, Os Três Conselhos Sagrados, Briga do Major Ramiro com o Diabo, História da Moura Torta e Galopando o Cavalo Pensamento.

A obra traz o selo da Global Editora.

Livraria Cortez (São Paulo)
Rua Bartira, 317 - Perdizes (ao lado da PUC-SP)
05009-000 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3873-7111 - Fax: (11) 3875-4949

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Auto da Compadecida e a literatura de cordel


Foi num folheto de gracejo que Ariano Suassuna encontrou o personagem-símbolo de sua dramaturgia. As Proezas de João Grilo (ver trecho abaixo), história escrita em 1932 por João Ferreira de Lima, trazia como protagonista o célebre amarelinho oriundo dos contos populares portugueses, que, no processo de aculturação, ganhou características idênticas às de outro famoso espertalhão de origem ibérica: Pedro Malazarte. Esse mesmo João Grilo será reaproveitado no Auto da Compadecida, transformado em filme em 2000 por Guel Arraes, com Mateus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Melo (Chicó) nos papéis principais.

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria,
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

(...)

Na noite que João nasceu,
houve um eclipse na lua,
e detonou um vulcão,
que ainda continua.
Naquela noite correu
um lobisomem na rua.

(...)



Entretanto, a Compadecida se baseia em três folhetos distintos, dois deles escritos por Leandro Gomes de Barros. O primeiro é O Cavalo que Defecava Dinheiro, que mostra como um finório consegue lograr um duque invejoso convencendo-o de que um cavalo é realmente capaz de obrar (sem trocadilho) o prodígio do título. Obviamente quem assistiu à peça ou à uma de suas versões para o cinema, sabe que o cavalo foi transmutado num gato, por motivos mais que compreensíveis. O outro poema de Leandro reaproveitado por Suassuna é O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), onde aparecem as figuras do padre e do bispo. A autoria de Leandro é inquestionável, embora a origem dos motivos que compõem a estória seja mais difícil de rastrear. O próprio Ariano reconhece essa dificuldade quando afirma: “- a história do testamento do cachorro, que aparece no Auto da Compadecida, é um conto popular de origem moura e passado, com os árabes, do Norte da África para a Península Ibérica, de onde emigrou para o Nordeste”.

Além destes dois poemas de caráter marcadamente cômico, o Auto propriamente dito – a última parte – tem por base o folheto O Castigo da Soberba, de autoria desconhecida, embrora alguns atribuam-na a Silvino Pirauá de Lima. A história tem a marcante presença do imaginário medieval que impregna a obra de Gil Vicente, outra evidente fonte de Suassuna. Maria (Nossa Senhora) é a advogada. Jesus o Juiz, e o Diabo o acusador. É a Nossa Senhora – a “advogada nossa” da oração Salve Rainha – que a alma recorre, em vista da iminente condenação. Evocada em nome de seu bendito filho, ela responde à súplica da alma. No final, após ouvir acusação e defesa, Jesus – no folheto também chamado Manuel – decide pela salvação da alma. O Diabo (Cão), vencido, chama os seus comandados. A estrofe abaixo reproduzida, com a última fala do tinhoso, está bem próxima do desfecho do Auto da Compadecida:

Vamos todos nós embora
Que o causo não é o primeiro,
E o pior é que também
Não será o derradeiro...
Home que a mulher domina
Não pode ser justiceiro.

Os três folhetos, diga-se de passagem, foram coligidos por Leonardo Mota no livro Violeiros do Norte. Indiretamente, este pesquisador cearense, ao reunir as três obras em seu precioso estudo, apontou o caminho que Ariano Suassuna deveria seguir, mesmo apoiando-se em outras tradições populares – especialmente o Bumba-meu-boi, onde os personagens Mateus e Bastião cumprem um papel semelhante ao de João Grilo e Chicó na Compadecida.





João Grilo marcou presença em outros folhetos de cordel, com destaque para O Professor Sabe-Tudo e as Respostas de João Grilo (de Klévisson Viana), A Professora Indecente e as Respostas de João Grilo (de Arievaldo Viana, João Grilo, um presepeiro no palácio (de Pedro Monteiro) e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo (de Marco Haurélio). O sucesso do Auto da Compadecida no cinema parece ter motivado o diretor Moacyr Góes a filmar O Homem que desafiou o Diabo (2007), baseado no livro As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, que, por sua vez, parte de folhetos de cordel do ciclo do Demônio Logrado.

terça-feira, 15 de março de 2011

Lenda do Major Ramiro é destaque em antologia


Major Ramiro Faria, sentado, de bigode, ao lado de minha bisavó, Elvira do Prado Fernandes. Ao lado do casal, os pais do Major, Ladislau e Angélica. De pé, minha avó Luzia Josefina (sexta, a partir da esquerda) e meu avô, Joaquim José de Faria, bem jovens. No alto da foto, os meninos são Maximino (Tio Maçu) E José Farias (padrinho José). O Major Ramiro era conhecido por sua valentia e por seus dons de taumaturgo (curador). Publiquei pela Luzeiro o cordel, cujo trecho incial está reproduzido abaixo, focando uma das muitas lendas envolvendo o meu bisavô.

A Briga do Major Ramiro com o Diabo, cordel, escrito a partir de uma das muitas lendas do sertão de outrora, é um dos sete folhetos que integram a antologia Meus romances de cordel (publicada, este ano, pela Global Editora).

Ramiro José de Faria (1882‑1966), meu bisavô paterno, na Ponta da Serra, localidade onde eu nasci, e nos arredores do sertão de minha infância, virou lenda. São muitas as histórias em que, em seu ofício de curandeiro, devolveu a sanidade a loucos e salvou da morte certa muitos doentes. Famoso também por sua valentia, foi perseguido pelo Dr. Franco Fernandes, um primo distante, primeiro médico a clinicar no Bonito, povoado próximo ao Barreiro, onde o Major residia. No presente texto, no entanto, recorri à imaginação para narrar um encontro do Major Ramiro com o Diabo, metamorfoseado num gato preto. Como deixo claro no texto, o episódio foi narrado por minha avó Luzia, embora, no cordel, todos os diálogos tenham sido criados por mim, seguindo a fórmula das histórias tradicionais de pelejas com o demo. Foi publicado pela editora Luzeiro, em 2006.


Capa do cordel editado pela Luzeiro

Trecho do cordel

Peço licença ao leitor
Pra narrar este relato
Contado por minha avó;
Portanto não é boato,
Em que o Diabo aparece
Na forma dum horrendo gato.

No tempo em que Igaporã
Ainda era um distrito
Da vizinha Caetité
E era chamado Bonito,
Na fazenda do Barreiro
Deu‑se um enredo esquisito.

No ano de oitenta e sete
Do dezenove nascia,
De tradicional família,
Ramiro José Faria.
Foi o maior taumaturgo
Que já viveu na Bahia.

A sua mãe era Angélica
E o seu pai, Ladislau.
Ele era quase um santo;
Ela tinha um gênio mau,
Vivia rogando pragas,
Era pior que um lacrau!

E parte do embate verbal com o Diabo:

Após cuspir duas brasas,
O gato disse: — Major,
Neste mundo eu sou o príncipe,
Não existe outro maior.
Quem quiser que se arrisque,
Mas vai levar a pior!

O major disse: — Demônio,
Te esconjuro, desgraçado,
Só estás aqui porque
Teu laço foi afrouxado,
Pois pela mão do Eterno
Tu vives subjugado.

Disse o capeta: — Ramiro,
De ti tenho muita dó,
Não foi acaso o Eterno
Que mandou eu tentar Jó,
Despojando‑o de tudo,
Deixando‑o tristonho e só?

— Jó sofreu grande infortúnio,
Porém teve recompensa,
E tu foste derrotado,
Mensageiro da doença!
Não venhas me iludir,
Pois disto tenho sabença.

Falou o monstro: — Porém
Contar‑te outra preciso:
Se o Rei não permitisse,
Nunca eu teria juízo
De entrar e tentar Eva,
Privando‑a do Paraíso.

— Dos desígnios do Senhor
Não tens a capacidade
Para tirar conclusões,
Pois não sabes da verdade:
Graças à falta de Eva
É que existe a humanidade.

— Ramiro, estás delirando
E precisas de uma luz:
Por que o teu Deus mandou
À terra o filho Jesus,
Pra morrer inutilmente,
Pendurado numa cruz?

— Maldito, disse o major,
Carece de explicação:
Três dias Jesus esteve
Na tenebrosa mansão,
Resgatando, desta forma,
Os descendentes de Adão.
(...)


Retrato retocado de meus avós Luzia Josefina e Joaquim

Para adquirir o folheto, clique AQUI

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lançamento: Meus Romances de Cordel (Global Editora)



Amigos (as), finalmente saiu, com o selo da Global Editora, o livro que reúne parte significatica de minha produção em cordel. O livro Meus romances de cordel traz sete títulos e abrange vários temas. Entre os textos, estão: O Herói da Montanha Negra (1987), A Briga do Major Ramiro com o Diabo (2005) e Os Três Conselhos Sagrados (2006).

Mas, para conhecer melhor a obra, leia o release abaixo, com texto do jornalista Guilherme Loureiro:

Meus romances de cordel

Contrariando aqueles que pensam que, no Brasil, a literatura de cordel não existe mais ou tenha perdido a força da primeira metade do século XX, a Global Editora, ciente de que ela está mais viva do que nunca, lança Meus romances de cordel, de Marco Haurélio. Nesta obra, estão reunidos os primeiros cordéis publicados por esse poeta baiano, nascido em Ponta da Serra, estudioso da cultura popular e cordelista de primeira linha.

A apresentação é assinada pela professora Vilma Mota Quintela, doutora em Letras pela UFBA, com estágio doutoral na Universidade de Paris X, e mestre em Teoria Literária pela Unicamp, com dissertação e tese na área de literatura de cordel. A obra traz, ainda, xilogravuras do premiado ilustrador Luciano Tasso.

A multiplicidade de temas e de persona­gens construídos por seus escritores é um dos principais traços da literatura de cor­del praticada no Brasil. Além desse aspecto que demonstra sua diversidade – marca própria da nossa cultura po­pular –, o cordel também tem conseguido espaço e visibilidade graças ao es­tilo apurado de seus autores.

Meus romances de cordel reúne sete histórias que lograram grande sucesso na ocasião em que foram lançadas em folheto, formato consagrado por esse gênero de nossa poesia popular. Aqui reunidas, apresentam a profusão de ti­pos construídos pelo autor, incluindo des­de os tradicionais heróis marcados pela bravura até aqueles satirizados por seus gracejos e ingenuidades. Para construir suas narrativas, Marco Haurélio se inspirou tanto na leitura dos clássicos como em sua própria biografia, bebendo informalmente na rica fonte da cultura sertaneja nordestina. A escrita sensível e a capacidade de imaginar e de fazer imaginar do autor mostram que o cordel feito no Brasil tem um hábil ti­moneiro, que conduz o barco numa rota cer­teira e promissora.

Guilherme Loureiro
Imprensa / Comunicação
Editoras GLOBAL, GAIA e GAUDI
Tel.: (11) 3277-7999 ramal 209 / DDR (11) 3382-5802
Rua Pirapitingui, 111 - Liberdade
01508-020 - São Paulo - SP
guilherme@globaleditora.com.br
www.globaleditora.com.br

sábado, 5 de março de 2011

Reencontro com um mestre da cultura



Entre os meses de dezembro e janeiro, feriei na Bahia. Aproveitei para rever os familiares, amigos e visitar os umbuzeiros, enquanto respirava os ares da terra natal.

Pousei em Serra do Ramalho, onde meus pais residem, e, depois fui à Igaporã, cidade onde passei parte de minha infância. Nesta cidade, revi Jacinto Farias Guedes, o Jacintinho, filho de Gustavo e sobrinho do lendário Major Ramiro José de Faria.

Para quem leu o meu livro Contos Folclóricos Brasileiros, Jacinto Farias Guedes não é um nome estranho. Ele é o narrador de três contos que figuram no livro:

A Onça e o Bode – conto de origem africana, registrado no Brasil desde os tempos de Silvio Romero;

José e Maria – história de encantamento que traz os motivos do célebre Hansel e Gretel, dos Irmãos Grimm acrescidos do episódio mítico da salvação da donzela pelo herói, rememorando o feito do semideus Perseu na mitologia grega;

e Maria Borralheira, a versão brasileira da história da Cinderela, universalmente difundida e merecedora de alentada bibliografia.

Em meu outro livro, Contos e Fábulas do nosso Folclore, que será lançado em agosto deste ano, figuram outros contos narrados por Jacinto no ano de 2005, quando iniciei minha recolha.

Neste ano, fui reencontrá-lo, depois de muito tempo, na mesma casa do Brejinho, escondida atrás de uma cerca de quiabento e com a Serra Geral como paisagem de fundo.
A mesma Serra Geral em que, noutros tempos, acreditou-se existir muito ouro. Hoje, tenho certeza que o verdadeiro tesouro são os seus habitantes, joias lapidadas pelo tempo, representantes de um Brasil que não pode deixar de existir.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Oficina de Cordel em Cidade Tiradentes





De volta a Cidade Tiradentes, sempre ciceroneado pelo amigo e poeta Pedro Monteiro, participei de mais uma oficina no Ônibus Biblioteca.

O projeto da Liga Brasileira de Editora (LIBRE) conta com o apoio da Prefeitura Municipal e tem, entre tantos méritos, o de aproximar autores, ilustradores e pesquisadores do público, em especial o da periferia paulistana.

No final, recebemos a visita do poeta popular Moreira de Acopiara.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Contos Folclóricos no Catálogo da Feira de Bolonha



Marco Haurélio e Maurício Negro no lançamento do livro Contos Folclóricos Brasileiros, na Livraria Cortez

O livro Contos Folclóricos Brasileiros (Paulus, 2010) foi selecionado para a Feira de Bolonha, a mais importante feira de literatura infantojuvenil do mundo.

Em 2010, outro livro de minha autoria, A Lenda do Saci-Pererê em Cordel, também publicado pela Paulus, foi selecionado para o Catálogo.

Abaixo o texto publicado 48THº BOLOGNA CHILDREN’S BOOK FAIR 2011, p. 54:

Contos folclóricos brasileiros

Marco Haurélio. Illustrations by Mauricio Negro. Paulus.

141p. ISBN 9788534931267

Starting from the proposal of preserving our popular memory and traditions, poet and folklorist Marco Haurélio, professor of the Bahia State University, presents a collection of folk tales, the result of painstaking research effort by his students. These are tales collected in Igaporã, Brumado, and Serra do Ramalho, in the state of Bahia and in the Ceará region of the Canindé. Loyalty to oral tradition may be observed when the author maintains the typical words of popular language as they were used by the original storytellers. The careful edition and Maurício Negro’s illustrations constitute an art that is complementary to Marco Haurélio’s art of popular narrative, resulting in a beautiful book. (MB)


Acesse o Catálogo clicando AQUI.

A minha versão poética de O Conde de Monte Cristo



Há cerca de seis anos dei a mim mesmo a incumbência de adaptar para os versos de cordel o grande romance de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo.

É a mesma versão que integrará em breve a coleção Clássicos em Cordel, da editora Nova Alexandria.

A ilustração acima reproduzida, de autoria de Klévisson Viana, retrata o momento em que, preso há anos na Fortaleza de If, Edmundo Dantez encontra o Abade Faria, que será seu tutor intelectual.

No romance em versos, essa passagem foi descrita da seguinte forma:

Topou um dia uma viga
E bradou indignado:
— Meu bom Deus, não me castigue,
Pois estou desesperado!
— Quem fala em Deus? — perguntou
Quem cavava do outro lado.

O moço então respondeu:
— Eu sou um prisioneiro.
Em liberdade exercia
O ofício de marinheiro.
Edmundo Dantez é
O meu nome verdadeiro.

— E por que é que está preso?
— Pela falsa acusação
De ter conspirado contra
O rei de nossa nação
Porque, por desgraça, um dia
Conheci Napoleão.

— E que idade tinha antes
De ser aprisionado?
— Não tinha nem vinte anos —
Disse Dantez, desolado,
Ao saber que na masmorra
Seis anos tinha passado.

Quando foi no outro dia,
Dantez, após o almoço,
Ouviu bater na parede,
Não teve nenhum sobrosso.
Aí viu surgir um velho
Que só era pele e osso.

(...)

O livro O Conde de Monte Cristo em Cordel conta com prefácio do também poeta Arievaldo Viana.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

História de Belisfronte volta à estante da Luzeiro



Esgotado há cerca de dois anos, a História de Belisfronte, o Filho do Pescador voltou à estante da Editora Luzeiro em grande estilo. A capa foi feita a partir de uma antiga ilustração de Salvador Magalon, o Smaga, para a História do Príncipe Formoso, de Rodolfo Coelho Cavalcante. Os dois romances, o meu e o de Rodolfo, não por acaso, trazem motivos do conto mítico de Apuleio, Eros e Psiquê.

A capa foi retrabalhada por Viviane Santos e finalizada por André Mantoano. A editoração eletrônica ficou a cargo do Frei Varneci Nascimento.


Peço às deusas que habitam
O Reino da Poesia
Que venham em meu auxílio
Dando-me sabedoria,
Para versar uma história
De fé, encanto e magia.

Onde a Fortuna sorri
A quem é merecedor,
Por isso narro este drama
Sobre um moço de valor:
A História de Belisfronte,
O Filho do Pescador.

Em um longínquo país
Habitava um camponês
Ao lado de sua esposa –
Os seus filhos eram três:
Eram pobres ao extremo,
Não tinham voz e nem vez.

Aquele pobre campônio
Sempre viveu do roçado,
Mas agora o que plantava
Não dava mais resultado;
Como se a Providência
Lhe houvesse abandonado.

Isto porque a semente
Que na terra ele lançava
Em forma de alimento
Ela jamais retornava
E a fome, cruel flagelo,
Toda a família assolava.

O velho então resolveu
Tornar-se um pescador,
A profissão de São Pedro,
Discípulo do Salvador,
Pensando em pôr fim àquele
Quadro desalentador.

E, assim, foi para o rio,
Munido de rede e anzol.
Disse: - Peixe nunca falta,
Faça chuva ou faça sol,
Os ribeiros estão cheios,
Do crepúsculo ao arrebol.

Pacientemente, o velho
Lá ficava todo o dia,
Até que o manto da noite
Aquele vale envolvia,
Mas, para surpresa dele,
Nenhuma piaba havia.

Pouco a pouco o desespero
Ia a esperança minando,
Com o aguilhão da miséria
O pobre velho açoitando.
Ele, então, olhou o Empíreo
E assim foi suplicando:

- Oh, Deus, Pai da humanidade,
Olhai este penitente
A quem a Sorte mesquinha
Mostra-se indiferente!
Enviai um lenitivo
Para meu tormento, urgente!


(...)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cordéis atemporais: Os Três Conselhos da Sorte

Pequena resenha de um grande clássico

Capa de Sergio Lima.

Por Marco Haurélio

Os Três Conselhos da Sorte, de Manoel D'Almeida Filho, é uma história cuja antiguidade é difícil precisar. Encontramos um antepassado ilustre no livro de Tobias (Tobit), ausente dos textos sagrados de judeus e protestantes, mas constante da Bíblia católica. Conta a história do casamento de Tobias e Sara, após o exorcismo do demônio Asmodeu, responsável pela morte dos sete homens com quem ela tinha casado anteriormente. Apenas Tobias, que subjuga (exorciza) o demônio, terá direito às núpcias, após três dias de abstinência. Os Três Conselhos da Sorte conserva este motivo, embora a rainha Formosante, antes de ver triunfar seu amado Francisquinho, não entende como morreram seus catorze maridos. O herói, de posse de três conselhos, outro motivo universal, terá às mãos as rédeas do destino, revertendo em sorte todo o infortúnio que até então lhe acompanhara os passos.

No Índice de motivos Aarne-Thompson-Uther, aparece entre os contos maravilhosos com a seguinte classificação:  ATU 507: O monstro dentro da noiva [The Monster’s Bride]

As estrofes iniciais vêm apoiadas pela sabedoria dos adágios populares:

Ninguém entende esta vida,
Em tudo existe um segredo,
Surpresa sobre surpresa,
Enredo em cima de enredo
A sorte nunca aparece
Na casa de quem tem medo.

Aqui queremos mostrar,
O quanto o destino é forte,
Como um rapaz inocente
Passou por cima, da morte,
Achando a felicidade
Nos três conselhos da sorte.

Ninguém entende porque
Um nasce para gozar,
Outro vem para sofrer
Sem nenhum mal praticar,
Às vezes um faz um crime,
Mas outro é quem vai pagar.

À frente de um caso desse,
Um ataca, outro defende,
A mente humana cansada
Luta, porém não entende,
Os mistérios desta vida
Só o bom Deus compreende.

Mestre Câmara Cascudo identificou ecos da história bíblica numa quadra conhecida em todo o Nordeste (pelo menos em seu tempo), registrada em Superstição no Brasil:

Sete vezes fui casada,
Sete homens conheci,
E juro por fé de Cristo,
Inda estou como nasci!...

Rica em detalhes, a história de Tobias abasteceu outros contos populares, trazendo, inclusive, o tema do morto agradecido. Rafael, o anjo, simboliza a gratidão dos mortos a quem Tobias deu sepultura, num episódio similar à posterior História de João de Calais, à qual Madame de Gómez deu redação em fins do século XVIII. Sílvio Romero recolheu o conto exemplar Os Três Conselhos, em Sergipe. Recolhi, em Brumado, Bahia, Os Três Conselhos Sagrados, em 2005. Vertido para o cordel, foi premiado pela Fundação Cultural da Bahia com o segundo lugar no Concurso Nacional de 2006.

A fusão de conto maravilhoso com história de exemplo fez de Os Três Conselhos da Sorte um clássico da literatura de cordel. Manoel D’Almeida Filho recriaria a história, apenas na aproximação temática, em Os Conselhos do Destino. Prova irrefutável na crença na existência de uma divindade – ou melhor, de uma lei – intangível, que regula e, em alguns casos, reorienta os nossos passos. “Um cavalo não passa na porta encilhado duas vezes”, diz a sabedoria popular. Sabedoria que o afortunado Francisquinho, protagonista do romance, soube escutar.

O romance Os Três Conselhos da Sorte integra a Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.