terça-feira, 11 de outubro de 2011

Drummond, Bilac e Leandro



Bilac, Drummond e Leandro em montagem de Arievaldo Viana

Tem sido repetido ad nauseam um texto de Carlos Drummond de Andrade, no qual o poeta mineiro supostamente louva Leandro Gomes de Barros em prejuízo de seu contemporâneo Olavo Bilac. Por falta de uma leitura crítica, a dicotomia contida na crônica Leandro, o Poeta (sertão X cidade) tem recebido pouca ou nenhuma atenção. Daí o rótulo de poeta "sertanejo" colado na testa de Leandro e repetido em livros que enfocam a vida ou a obra do poeta. Sempre considerei o texto de Drummond maniqueísta e, por isso mesmo, tenho-me negado a me valer dele para exaltar as qualidades de Leandro, que falam por si mesmas. O desprezo com que é tratado o grande poeta Olavo Bilac, autor de algumas das mais belas páginas da literatura nacional, também me incomoda. 

O poema infantil Plutão, reproduzido abaixo, revelador de outra faceta de Bilac, a poesia infantil, da qual pioneiro, pode ser usado em um estudo comparativo com o romance O Cachorro dos Mortos, de Leandro Gomes de Barros. Em comum, a fidelidade canina, exaltada ainda na Balada do Desesperado, do francês Henri Murger, admiravelmente traduzida para o português por Castro Alves. Depois de tantos muros erguidos entre Leandro e Bilac, que, coincidentemente, nasceram e morreram no mesmo ano (1865-1918), é hora de aproximá-los, mostrando o que eles têm em comum, partindo do singelo poema de Bilac e do grande romance leandrino.



P
lutão


Negro, com os olhos em brasa,
 
Bom, fiel e brincalhão,
 
Era a alegria da casa
 
O corajoso Plutão.
 

Fortíssimo, ágil no salto,
 
Era o terror dos caminhos,
 
E duas vezes mais alto
 
Do que o seu dono Carlinhos.
 

Jamais à casa chegara
 
Nem a sombra de um ladrão;
 
Pois fazia medo a cara
 
Do destemido Plutão.
 

Dormia durante o dia,
 
Mas, quando a noite chegava,
 
Junto à porta se estendia,
 

Montando guarda ficava.
 

Porém Carlinhos, rolando
 
Com ele às tontas no chão,
 
Nunca saía chorando
 
Mordido pelo Plutão . . .
 

Plutão velava-lhe o sono,
 
Seguia-o quando acordado:
 
O seu pequenino dono
 
Era todo o seu cuidado.
 

Um dia caíu doente
 
Carlinhos . . . Junto ao colchão
 
Vivia constantemente
 
Triste e abatido, o Plutão.
 

Vieram muitos doutores,
 
Em vão. Toda a casa aflita,
 
Era uma casa de dores,
 
Era uma casa maldita.
 

Morreu Carlinhos . . . A um canto,
 
Gania e ladrava o cão;
 
E tinha os olhos em pranto,
 
Como um homem, o Plutão.
 

Depois, seguiu o menino,
 
Seguiu-o calado e sério;
 
Quis ter o mesmo destino:
 
Não saiu do cemitério.
 

Foram um dia à procura
 
Dele. E, esticado no chão,
 
Junto de uma sepultura,
 
Acharam morto o Plutão.
 



Nota: Na crônica de Drummond, publicada no Jornal do Brasil, de 9 de setembro de 1976, do começo ao fim, a opção é pelo confronto. Vejamos um trecho: 

"Um é Poeta erudito, produto de cultura urbana e burguesia média; o outro, planta sertaneja vicejando a margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebia com flores. Este espalhava seus versos em folhetos de Cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pés no chão..." 


Até onde sei, Leandro não utilizava xilogravuras toscas em seus folhetos, o que já evidencia um equívoco no argumento que se vale da comparação. Mas, vamos a outro trecho: 



"A poesia parnasiana de Bilac, bela e suntuosa, correspondia a uma zona limitada de bem estar social, bebia inspiração européia e, mesmo quando se debruçava sobre temas brasileiros, só era captada pela elite que comandava o sistema de poder político, econômico e mundano. 



A de Leandro, pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco, era a que tocava milhares de brasileiros humildes, ainda mais simples que o poeta, e necessitados de ver convertida e sublimada em canto a mesquinharia da vida."

A comparação agora se dá sob o prisma do estético. E, vale dizer, desta vez Leandro fica em desvantagem por conta de outro grave equívoco de Drummond. Sua poesia não era "pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco". Uma das características da (boa) literatura de cordel é a riqueza rítmica, musical, e nesse contexto triunfam Leandro e vários outros autores. Afirmar que ele não tinha apoio livresco é cair no reducionismo dos que julgam o poeta "popular" alguém à margem da cultura oficial. Leandro, embora não tenha tido acesso a uma boa instrução formal, era um grande leitor. Em sua obra encontramos versões de contos das Mil e Uma Noites, de Livros do Povo (conforme definição de Teófilo Braga emulado por Câmara Cascudo) e, eté mesmo, de um clássico do nosso romantismo. Refiro-me a Noite na Taverna, admiravelmente relido em Meia-noite no Cabaré. 


Enfim, o texto de Drummond, na tentativa de fazer justiça, carrega nos estereótipos, principalmente quando uma análise atenta comprova que ele sabia menos de Leandro e de sua obra do que se alardeia.