segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cordéis atemporais: Os Três Conselhos da Sorte

Pequena resenha de um grande clássico

Capa de Sergio Lima.

Por Marco Haurélio

Os Três Conselhos da Sorte, de Manoel D'Almeida Filho, é uma história cuja antiguidade é difícil precisar. Encontramos um antepassado ilustre no livro de Tobias (Tobit), ausente dos textos sagrados de judeus e protestantes, mas constante da Bíblia católica. Conta a história do casamento de Tobias e Sara, após o exorcismo do demônio Asmodeu, responsável pela morte dos sete homens com quem ela tinha casado anteriormente. Apenas Tobias, que subjuga (exorciza) o demônio, terá direito às núpcias, após três dias de abstinência. Os Três Conselhos da Sorte conserva este motivo, embora a rainha Formosante, antes de ver triunfar seu amado Francisquinho, não entende como morreram seus catorze maridos. O herói, de posse de três conselhos, outro motivo universal, terá às mãos as rédeas do destino, revertendo em sorte todo o infortúnio que até então lhe acompanhara os passos.

No Índice de motivos Aarne-Thompson-Uther, aparece entre os contos maravilhosos com a seguinte classificação:  ATU 507: O monstro dentro da noiva [The Monster’s Bride]

As estrofes iniciais vêm apoiadas pela sabedoria dos adágios populares:

Ninguém entende esta vida,
Em tudo existe um segredo,
Surpresa sobre surpresa,
Enredo em cima de enredo
A sorte nunca aparece
Na casa de quem tem medo.

Aqui queremos mostrar,
O quanto o destino é forte,
Como um rapaz inocente
Passou por cima, da morte,
Achando a felicidade
Nos três conselhos da sorte.

Ninguém entende porque
Um nasce para gozar,
Outro vem para sofrer
Sem nenhum mal praticar,
Às vezes um faz um crime,
Mas outro é quem vai pagar.

À frente de um caso desse,
Um ataca, outro defende,
A mente humana cansada
Luta, porém não entende,
Os mistérios desta vida
Só o bom Deus compreende.

Mestre Câmara Cascudo identificou ecos da história bíblica numa quadra conhecida em todo o Nordeste (pelo menos em seu tempo), registrada em Superstição no Brasil:

Sete vezes fui casada,
Sete homens conheci,
E juro por fé de Cristo,
Inda estou como nasci!...

Rica em detalhes, a história de Tobias abasteceu outros contos populares, trazendo, inclusive, o tema do morto agradecido. Rafael, o anjo, simboliza a gratidão dos mortos a quem Tobias deu sepultura, num episódio similar à posterior História de João de Calais, à qual Madame de Gómez deu redação em fins do século XVIII. Sílvio Romero recolheu o conto exemplar Os Três Conselhos, em Sergipe. Recolhi, em Brumado, Bahia, Os Três Conselhos Sagrados, em 2005. Vertido para o cordel, foi premiado pela Fundação Cultural da Bahia com o segundo lugar no Concurso Nacional de 2006.

A fusão de conto maravilhoso com história de exemplo fez de Os Três Conselhos da Sorte um clássico da literatura de cordel. Manoel D’Almeida Filho recriaria a história, apenas na aproximação temática, em Os Conselhos do Destino. Prova irrefutável na crença na existência de uma divindade – ou melhor, de uma lei – intangível, que regula e, em alguns casos, reorienta os nossos passos. “Um cavalo não passa na porta encilhado duas vezes”, diz a sabedoria popular. Sabedoria que o afortunado Francisquinho, protagonista do romance, soube escutar.

O romance Os Três Conselhos da Sorte integra a Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.

Resposta ao poema de amigo



Recebi e-mail do grande amigo, valdeck de Garanhuns, respondendo ao poema de Moreira de Acopiara, já publicado neste blog. Abaixo a contribuição de Valdeck a esse tema inesgotável:

O amigo é um verdadeiro irmão
que nas curvas cruéis da nossa estrada
ele marca presença em nossa vida
pelejando conosco na jornada
viajando no tempo e no espaço
no escuro e na noite enluarada.

O amigo não bebe o amargor
que contém numa taça de tristeza
mas adoça um pote de ternura
para a gente beber ante a fraqueza
e arranca de nós um riso alegre
nos contando a história da beleza.

O amigo não anda lado a lado
se buscamos caminhos escabrosos
se andarmos incautos pelas trevas
com os falsos amigos mentirosos
mas nos mostra atalhos que nos livra
de cair em abismos perigosos.

O amigo não livra nossa pele
das feridas da nossa inconseqüência
mas coloca remédio em nossas chagas
nos dizendo as vantagens da prudência
e escuta as lamúrias lacrimosas
com ouvidos de amor e paciência.

O amigo não reza a mesma reza
nem se importa se a gente é um cristão
mulçumano, budista, umbandista
se é ateu ou não tem religião,
mas está sempre em pé e sempre à ordem
pra pegar bem seguro em nossa mão.

O verdadeiro amigo não se ausenta
e jamais muda seu comportamento
em momentos de paz e alegria
ou em dias de dor e sofrimento
é presença certeira em nossa vida
é a luz, o aprisco e o alento.

Com certeza irmão, sou seu amigo
se puder sou também sua estrela guia
se você ficar triste eu me entristeço
e me alegro com sua alegria
se escura ficar a sua estrada
eu clareio com o sol do meio dia.

Precisando de mim estou presente
se quiser ficar só, fique à vontade
minha casa é aberta pra você
com dormida, comida e lealdade
e o amor de Jesus Nosso Senhor
subscreve a eterna amizade.

Valdeck de Garanhuns

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Flor do Maracujá



Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças de mãe-d’água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas,
Que falam de Jeová!
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está!…
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em – á –
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos, ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

O singelo poema acima reproduzido foi escrito pelo poeta fluminense Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 –1871), uma das grandes figuras do nosso romantismo literário. Quem o ler, não deixará de notar muitas similaridades com os escritos dos chamados poetas “populares”. O uso do mote no sexto verso talvez seja a característica mais ressaltada para os que, como eu, conseguem fazer esta associação.

O romantismo, aqui e alhures, bebeu nas fontes populares (assim designadas pelo fato de o nome dos autores de muitas canções, poemas e histórias ter-se perdido em algum lugar do passado). Baladas como a Lenore (Leonor, na tradução exemplar de Alexandre Herculano) foram arrancadas dos jograis e levadas aos salões nobres da Alemanha por Gottfried August Bürger (1704-1794, contemporâneo de Goethe. O próprio autor de Fausto incluiu no seu poema filosófico a Canção do Rei de Tule, curvando-se à tradição, fonte inesgotável na qual os gênios de todas as épocas saciam a sua sede.

Bem, tudo isso para dizer que A Flor do Maracujá, poema de Fagundes Varela, apesar de impregnado do “espírito popular, é uma composição autoral, baseada numa antiga lenda que remete ao Drama da Paixão. Quando Jesus era pregado à cruz, seu sangue espirrou e coloriu a flor branca que crescia na encosta do monte Gólgota. Essa flor é o maracujá, que tem a cor roxeada das chagas de Nosso Senhor.

No blog Nos Passos de Jesus encontrei a mesma explicação etiológica de minha infância sertaneja:

“Missionários espanhóis do século XVI viram a flor do maracujá e ficaram em êxtase. Acharam que sua estrutura representava a Paixão de Cristo. As pétalas e sépalas representavam os apóstolos, as anteras simbolizavam as chagas de Cristo, os três estigmas faziam referência aos três pregos na cruz, e os filamentos a coroa de espinhos... As flores seriam manchadas de roxo em virtude do sangue de Cristo.”

No poema de Fagundes Varela, as referências aparecem sempre nos quintos versos:
“Pelo cálice de angústias”, “Pela coroa de espinhos”, “Pelos cravos desenhados”, “Pelas chagas roxeadas”, “Pela lança ensangüentada”.

E são em número de cinco, porque cinco são os Mistérios Dolorosos da tradição católica.

O mesmo tema recebeu um tratamento, digamos, pitoresco do poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946):

A FLOR DO MARACUJÁ

Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me, caro sertanejo,
Por que razão nasce roxa
A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá

Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá

Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão

Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro

Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê

Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza

Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera

E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô

I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor

Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.

A lenda também frequenta as páginas do poema épico Caramuru, de Santa Rita Durão (1722—1784):

"Nem tu me esquecerás, flor admirada
Em quem não sei se a graça, se a natura
Fez da Paixão do Redentor Sagrada
Uma formosa e natural pintura
Pende com pomos mil sobre a latada
Áureos na cor, redondos na figura
O âmago fresco, doce rubicundo
Que o sangue indica que salvaria o mundo .

Com densa cópia se derrama,
Que muito a vulgar hera é parecida,
Entre sachando pela verde rama
Mil quadros da Paixão do Autor da vida;
Milagre natural que a mente chama
Com impulsos da graça, que a convida,
A pintar sobre a flor aos nossos olhos
A cruz de Cristo, as chagas e os abrolhos.

É na forma redonda, qual diadema,
De pontas, com espinhos, rodeada,
A coluna no meio, e um claro emblema
Das chagas santas e da cruz sagrada;
Vêm-se os três cravos e na parte extrema
Com arte a cruel lança figurada;
A cor é branca, mas de um roxo exangue
Salpicada, recorda o pio sangue.

Prodígio raro, estranha maravilha,
Com que tanto mistério se retrata!
Onde em meio das trevas a fé brilha
Que tanto desconhece a gente ingrata!
Assim, do lado seu nascendo filha
A humana espécie, Deus piedoso trata,
E faz que, quando a graça em si despreza,
Lhe pregue com esta flor a natureza".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um poema de Moreira de Acopiara


Poema de amigo

Eu não posso mostrar-lhe as soluções
Dos problemas que surgem em sua vida,
Mas vou sempre escutar seus argumentos
E pedir que ande de cabeça erguida,
Preservando a humildade, a gentileza,
Inventando um caminho, uma saída.

Eu não posso mudar o seu passado,
Nem prever as surpresas do futuro,
Mas prometo lutar no seu presente
Para que seu andar seja seguro,
O seu sono não seja tão pesado,
E o percurso tranquilo, ou menos duro.

Seus triunfos, seus êxitos... Não são meus,
Mas, se sei que você está feliz,
Eu me alegro também! Rejuvenesço
Revivendo esse bem que eu sempre quis.
Não sei muito. Sei pouco. Quase nada!
Mas, me ensine também! Sou aprendiz.

Eu não posso julgar as decisões
Que você precisar tomar com pressa,
Mas eu posso tentar servir de estímulo,
Porque sei que na vida se tropeça.
Posso ainda dizer: “Tente outra vez!”
E ser justo, sem que você me peça.

Eu não posso lhe impor nenhum limite,
Muito menos deter a sua ação;
Eu não posso evitar seu sofrimento
Quando alguém lhe partir o coração,
Mas eu posso tentar juntar os cacos
E apontar-lhe uma nova direção.

Eu não posso dizer quem você é,
Muito menos quem deveria ser;
Posso dar meu amor e meus cuidados,
Ser parceiro, ser firme, agradecer...
Ser amigo leal, ser tolerante,
E torcer pra ver você crescer.

Eu não posso querer ser o primeiro,
O segundo ou terceiro em sua lista.
Mas desejo dizer: “Sou seu amigo!”
E vibrar ao lembrar essa conquista,
Defender seus direitos e tentar
Não perder (nunca mais) você de vista.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Reencontro com um mestre do Cordel


João Gomes e "seo" Eneias em Maceió

Por João Gomes de Sá via fotolog

Quando é possível economicamente, retorno a minha querida Maceió. Este ano, “convidei-me” para tomar um banho de mar na terra das danças, dos folguedos, do sururu, da tapioca tradicional, do pé-de-moleque e, sobretudo, das belas praias – só as praias, porque o centro, o mercado, os bairros e o transporte coletivo continuam “horrorosos”, sem contar o “Salgadinho”(esgoto a céu aberto que adentra a praia avenida)”, verdadeiro paraíso para os ratos, cobras, baratas e o mosquito da dengue.

Visitei, ainda, o Museu Théo Brandão. Senti-me gratificado em rever a casa do Dr. Théo tão bem cuidada e com um acervo da cultura do povo tão múltiplo e singular como é o artista alagoano, mas estavam ausentes as obras do “seo” Enéias, aliás, o seu cantinho, seu ateliê com suas xilogravuras, seus folhetos de cordel, o sorriso e a especial atenção dispensada aos visitantes. Uma vez ele me confessara: “Quando eu me aposentar quero permanecer aqui nessa casa, fazendo meus versos, minhas xilos e minhas glosas.” Felizmente, depois de muitos anos, pude rever o meu mestre na arte da gravura. “Seo” Enéias está triste, nem escreve mais, e sobre a arte de xilografar, comentou com os olhos nadando em lágrimas: “A vista não ajuda”.

Sobre a literatura de cordel, apesar de não escrever mais, ficou feliz em saber que houve uma retomada com o surgimento de editoras, como a Tupynanquim, de Fortaleza. Mostrou-se meio cabreiro com alguns títulos da atualidade, mas acredita que, no processo, só as obras boas vão permanecer.

Será que os estudiosos, os promotores de cultura, os órgãos oficiais, as secretarias e principalmente os estudantes de letras, de folclore, de turismo, de ensino médio e os professores conhecem o maior cordelista alagoano vivo e autor de grandes sucessos, como A Carta do Satanás a Roberto Carlos, A Briga de Dois Matutos por Causa de um Jumento, Chico Xavier e tantos outros do catálogo da Editora Luzeiro/SP?

Viva “Seo" Eneias!

Estou aqui: jgsacordel@ig.com.br
jgsacordel@gmail.com

Nota do blog: o "Seo" Eneias da foto e do texto de João Gomes não é outro senão o grande cordelista alagoano Eneias Tavares dos Santos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Relembrança da Bienal do Ceará



Em 2008, em Fortaleza, onde estive a convite de Klévisson Viana, para proferir uma palestra na Bienal do Livro do Ceará, encontrei algumas figuras lendárias da nossa poesia popular. Na foto, aparecem, além de mim, Assis Ângelo, Bule-Bule, Mestre Azulão, Klévisson Viana e João Firmino Cabral.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Valdério Costa (re) inventa o Nordeste em exposição na UNB



Alunos da Escola Parque da 210 Norte expõem xilogravuras

Os estudantes de 5ª série do ensino fundamental da Escola Parque 210/211 Norte realizam mostra de xilogravuras (ou gravuras em madeira), com o tema “As árvores do Cerrado”. Os trabalhos dos alunos podem ser visitados na própria Escola Parque, durante todo o dia.

Durante esta semana, como forma de aprofundar os estudos de artes, os alunos visitaram a mostra de xilogravuras de seu professor, o artista plástico Valdério Costa, que está expondo desenhos e pinturas no hall de entrada da Biblioteca da Universidade de Brasília (UnB). A exposição de Valdério, intitulada “Reinvenção do Nordeste”, retrata a cultura popular com danças e ritmos próprios, a literatura de cordel e os arquétipos cangaceiros, beatos, donzelas, entre outros.

Os trabalhos dos alunos da Escola Parque estarão disponíveis para visitação, na própria escola, até a próxima sexta-feira, dia 17. Já a exposição do artista plástico Valdério Costa, esta na Biblioteca da UnB, com entrada franca, também pode ser visitada a mesma data.

Contatos com o professor e artista Valdério Costa podem ser feitos pelos telefones 3901-7526 ou 9175-0526, ou ainda pelo e-mail valderiodacosta@gmail.com

Fonte: Agência Brasília

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O BOI CARDIL

        Xilogravura de Lucélia Borges 


Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.


Nota: Esta versão do célebre conto O Vaqueiro que não Mentia consta dos Contos Tradicionais do Povo Português, recolhidos por Teófilo Braga e publicados em 1883.


A origem da história se perde na noite dos tempos. É encontrada na literatura oral de vários países e tem especial valor para o povo nordestino, pois seu eixo central gira em torno da idoneidade do vaqueiro, incapaz de proferir uma mentira. Na versão em cordel, História do Boi Leitão ou O Vaqueiro que não Mentia, de Francisco Firmino de Paula, o vaqueiro Dorgival é convencido a matar o Boi Leitão, de estimação do patrão, pela filha do próprio. É este o dilema que afligirá o honesto empregado. Câmara Cascudo traz duas versões: O Boi Leição, de Alagoas, e Quirino, o Vaqueiro do Rei, do Rio Grande do Norte. A substituição do fazendeiro por um rei em muitas versões atesta a ancianidade deste conto que, segundo Théo Brandão, se não é o mãos velho, é “pelo menos um dos mais velhos da História da Humanidade”. O motivo da morte do boi para satisfação do desejo duma mulher ganhou independência nas encenações do Bumba meu boi.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Megera Domada volta ao teatro



A Megera Domada em Cordel, de minha autoria, acaba de ganhar uma versão teatral, levada a efeito pela Cia. da Caçamba e pela Faculdade Paulista de Artes. A informação é do amigo, ator e grande agitador cultural Pedro Cosmos.

Dirigida por Ivano Silva de Lima, a peça será encenada nos dias 29, 30 de novembro e 1º de dezembro.

Local: Teatro Ruth Escobar
Rua dos Ingleses, 209

Entrada franca

*********

A Megera Domada em cordel baseia-se na peça teatral de William Shakespeare, uma das melhores comédias do grande dramaturgo inglês. Shakespeare encontrou o tema central da peça – a moça irritadiça que espanta todos os pretendentes a sua mão – na tradição oral. O conto popular no qual se baseia a peça circula, com algumas variações, no folclore de vários países.

Na Itália, no século XVII, Giambatista Basile, na obra Pentamerone, publicou o conto Noiva Punida, com a mesma temática. Dois séculos depois, o mesmo motivo foi detectado no conto O Rei Barba de Tordo (König drosselbart, no original alemão dos Irmãos Grimm), no qual o pretendente rejeitado e ridicularizado pela megera se finge de mendigo para desposá-la.

No Brasil, Câmara Cascudo recolheu uma versão sugestiva (O Conde-pastor). A história fala da insuportável princesa Sidônia que, após rejeitar todos os pretendentes nobres, é obrigada a se casar com um humilde pastor. Ela será obrigada a fazer as tarefas mais rudes e se emprega do palácio do Conde Lourenço, que tenta seduzi-la. Após recusá-lo descobre que, atrás das barbas postiças, se escondia o seu pastor. Aprende, a duras penas, o valor da humildade. O cordelista cearense Evaristo Geraldo reaproveitou o tema no romance O Conde Mendigo e a Princesa Orgulhosa.

Em Portugal, a peça de Shakespeare é conhecida como A Fera Amansada.

Contos Folclóricos Brasileiros na revista Crítica & Debates



CONTOS POPULARES DO SERTÃO DA BAHIA

RESENHA

HAURÉLIO, Marco. Contos folclóricos brasileiros. São Paulo: Paulus, 2010. 144 p.

Por Rogério Soares Brito[1]

Em todas as épocas os homens sempre encontraram bons motivos para ouvir ou contar histórias. As tradições populares, através de suas variadas manifestações culturais, encarregaram-se de manter vivas as inúmeras histórias que há tempos persistem no imaginário e são constantemente recontadas na forma de lendas, fábulas, contos, parábolas e histórias fantásticas.

Ecos de tempos passados, muitas histórias encantadoras e maravilhosas, que habitam o imaginário popular, têm sido exaustivamente estudadas por pesquisadores, historiadores, psicanalistas, além de inspirarem os trabalhos de escritores, como os irmãos Grimm, grandes coletores de contos, Charles Perrault, Jean de La Fontaine, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato entre outros. Marca indelével da cultura popular, a literatura oral segue o ritmo da espontaneidade do povo, suas crenças, tradições e festas.

Muitos foram os coletores de contos populares ao longo da história; seus enredos exóticos e personagens misteriosos despertam a curiosidade e a simpatia de um público variado, que não consegue ficar indiferente a essas narrativas. Só para ficar no Brasil, essas narrativas populares foram o foco de interesse de grandes estudiosos da cultura popular, entre eles estão Sílvio Romero, Amadeu Amaral, Aluísio de Almeida, Câmara Cascudo, Henriqueta Lisboa e outros. Porém, esses não são os seus criadores, elas são criações do povo, manifestações genuínas das capacidades criativas de populações historicamente marginalizadas.

Esse trabalho de pesquisa ou de recolhimento das narrativas populares nunca foi pacífico. Alguns estudiosos modificaram um pouco os relatos que coletaram. Outros simplesmente ignoraram os valiosos e exemplares conselhos contidos nas histórias e, por excessivo brio religioso, social ou político, resolveram mutilar os contos, caso do padre francês Antoine Galland. Responsável pela tradução da obra As mil e uma Noites para o Ocidente, ele interferiu diretamente na tradução ao deixar de fora inúmeras narrativas. Acreditava assim preservar as consciências religiosas das imoralidades que se ocultavam em várias histórias contadas pela princesa Cheherazade.

Todavia a literatura oral segue viva e conquistando mais e mais leitores, além de continuar atraindo o interesse de outros pesquisadores, caso do poeta, editor e folclorista Marco Haurélio, nome de prestígio no campo de estudo da cultura popular brasileira. Marco Haurélio tem atuado na linha de frente das ações de valorização e preservação da herança cultural do nosso povo, pesquisando, escrevendo e divulgando essa tradição através da literatura de cordel e de livros infantojuvenis que abordam sempre os temas da cultura popular.

Natural de Riacho de Santana, Bahia, esse jovem escritor, que em julho completou 36 anos, recolheu, entre os anos em que viveu na cidade vizinha a sua terra natal, Igaporã, enquanto cursava Letras na UNEB/Campus VI (Caetité – BA) e lecionava numa escola pública do ensino básico, uma centena de contos populares, lendas e fábulas, colhidas direto da fonte mais preciosa, as vozes de anciões sabiamente nutridas pela tradição popular.




Abertura da seção Contos de encantamento ou maravilhosos (ilustração de maurício Negro)

O seu mais novo livro, Contos Folclóricos Brasileiros, editado pela Paulus e ilustrado por Maurício Negro, é fruto desse trabalho de pesquisa da cultura popular, que desde cedo seduziu o autor. O livro não traz na íntegra todas as histórias recolhidas pelo autor durante o período em que viveu em Igaporã, mas apenas algumas das narrativas, coletadas entre as cidades de Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana, Igaporã, Caetité e Brumado.[2] Esse primeiro trabalho será ampliado num segundo livro, que além dos contos terá lendas e fábulas. Esse segundo trabalho está com data prevista ainda para este ano, e sairá pela Nova Alexandria, editora onde o autor trabalha como editor desde que saiu da Luzeiro, tradicional casa editorial de grandes cordelistas.

Nascido em uma família de trabalhadores rurais, Marco Haurélio ouviu, desde a mais tenra idade, de seu pai e de sua avó Luzia Josefina de Farias as deslumbrantes lendas, aventuras, cenas de amores e lutas religiosas, narradas saborosamente à luz de candeeiros movidos a querosene. Desse imaginário cheio de exotismo aprendeu as mais ricas e belas lições da vida em toda a sua maravilhosa diversidade. Dessas vivências é que ele tira a substância para os seus trabalhos, sempre associados ao universo da cultura e das tradições populares.

Com 36 contos, as narrativas contidas nesse livro abordam uma variedade de temas. Vão dos contos de animais em que os personagens, à moda das fábulas, personificam ações humanas, com fim moralizante, passando dos contos maravilhosos ou de encantamento onde as narrativas se desenrolam através das aventuras de personagens na busca de realizações emocionais, até, como é próprio da tradição cultural popular, narrativas com motivos religiosos, inspiradas nos evangelhos.

Outros temas, como os contos novelescos ou de amor e recompensa, contos jocosos ou humorísticos, contos de fórmula ou acumulativos e os contos de exemplo, completam a recolha. Os amantes das histórias dos irmãos Grimm e os leitores de Perrault reconhecerão de pronto os motivos de várias narrativas que aqui foram reincorporadas à tradição cultural do Nordeste. Uma característica dos contos populares é que eles podem sofrer transformações ao longo do tempo, porém sua essência é a mesma de um conto remoto, contado em época e lugar completamente diferente. Isso pode ser exemplificado pela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto.

Objetos de entretenimento, distração despretensiosa, são muitos os usos que se pode dar a essas histórias. O certo, no entanto, é que as várias narrativas presentes no imaginário popular, e agora reunidas nesse fabuloso trabalho, servem-se do extraordinário e encantatório, presentes nas histórias, como adereço à instrução dos homens, de todas as idades. A sabedoria contida no conto popular é capaz de levar o homem, nas palavras de Heinrich Zimmer, grande estudioso das culturas antigas, a uma consciência de si próprio, suas potencialidades, bem como ao reconhecimento de seus limites.

Despretensiosos em sua linguagem, os contos recolhidos e recontados por Marco Haurélio seguem fielmente os falares populares, tão variados e expressivos. Sem prejuízo ao entendimento do conto, ou ao trabalho de verter das fontes orais, cheias de redundância, para a escrita os vocábulos próprios e as expressões típicas dos contadores, os contos recolhidos aqui preservam as nuances idiomáticas que caracterizam a fala do povo. Veja-se um exemplo: no conto São Pedro e a questão das almas, a certa altura se lê “São Pedro foi o santo mais teimoso e arteiroso que já existiu...”. Arteiroso, expressão singular do vocabulário nordestino, aqui preservada. Familiarizados com essas expressões, os nordestinos, principalmente os da região onde foram recolhidos os contos, não encontrarão qualquer dificuldade em entender o significado da palavra. Os leitores de outras regiões terão o auxílio de um rico glossário atentamente preparado para desbaratar qualquer dúvida quanto aos significados regionais que abundam nos contos. Nele podemos ler: Arteiroso, sinônimo popular de teimoso e, em alguns casos, de inteligente.

Fonte inesgotável de saberes, os contos populares, assim como as lendas e fábulas, são criações inspiradas de civilizações antigas com o mais elevado propósito: corrigir quando parecem incorrigíveis as malversações, alertar quando os sinais ainda não são totalmente visíveis, fazendo vivos erros que, de tão graves e grosseiros, não deveriam tornar a se repetir.

As distrações que eles promovem, não escondem as mensagens profundas que são encenadas por animais e outros seres mágicos, a fim de divertir, entretendo. Jean de La Fontaine, autor francês que modernizou as fábulas do grego Esopo, quando falou a respeito do propósito de suas fábulas, disse: “Sirvo-me dos animais para instruir os homens”.
Os contos populares estão ricamente espalhados por todos os lugares do mundo. Migrando de região em região, reincorporam elementos sempre novos das várias civilizações por onde andaram. Puro alimento espiritual de um sem número de povos que, em sua maioria, já não existem, mas que permanecem vivas, através dos tempos, como testemunhas de épocas remotas, essas narrativas tradicionais encontraram pouso tranquilo e morada segura nos rincões “carrascosos” do Brasil, e aqui persistem, graças aos esforços e ao trabalho de homens como Marco Haurélio.

Essas histórias guardam íntima relação com aquilo que chamamos de identidade de um povo. Se elas desaparecerem, parte significativa da memória, sabiamente abrigada por anos no seio de corações ardentes, some, e com ela, o registro dos hábitos e costumes que compõem as tradições populares, elo entre o passado e o futuro de uma nação, também desaparece. Estímulo às consciências, leitura prazerosa, os contos contidos nesse saboroso livro entretêm, ensinando. Passatempo divertido, os contos populares também servem de pretexto para reunir os amigos e a família numa roda descontraída de leitura onde a imaginação cavalga por terras distantes.

Publicado em: Crítica & Debates, v. 1, n. 1, p. 1-4, jul./dez. 2010

[1] Professor Auxiliar do curso de Letras da UNEB/Campus VI. Especialista em Literatura Comparada em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC / 2008).

[2] Cidades baianas localizadas na região Sudoeste do Estado.