sexta-feira, 17 de junho de 2011

Entrevista ao blog Pesponteando



Por: Paula Ivony Laranjeira, no blog Pesponteando

Numa prosa quase um causo, vamos conhecendo Marco Haurélio, um escritor do sertão baiano que na infância brincava de ser cordelista. E o que era brincadeira, tornou-se coisa séria. Hoje ele é referência no escrita e estudo em literatura popular. Morando atualmente em São Paulo não deixa de frisar que tem as raízes no sertão: "E eu agradeço a Deus todos os dias o ter nascido num pedaço do sertão-mundo de Guimarães Rosa." Convido os amigos para puxar uma cadeira, sentar e tomar parte neste causo...

PILS - Quem é Marco Haurélio? 

MH: Essa eu posso responder em versos
O meu nome é Marco Haurélio,
Eu sou filho da Bahia.
Ser poeta popular
É minha grande alegria,
Pois vou tecendo universos
Em letras que parem versos,
Estrofes e poesia.
Sou poeta mais voltado para o universo da literatura de cordel, pesquisador da cultura popular brasileira e, neste momento, “estou” editor da Nova Alexandria, de São Paulo, onde coordeno a coleção Clássicos em Cordel.

PILS - A partir de sua experiência, como nasce o escritor?
Marco aos dois meses, em ponta da Serra, já ouvia histórias de cordel


MH: O leitor engendra o escritor. A minha experiência inicial foi com o cordel. Antes de saber ler, já o ouvia na bela voz de minha avó, Luzia Josefina, que sabia vários textos de cor. Havia uma gaveta de um armário, onde ela guardava os clássicos do cordel da editora Prelúdio/Luzeiro e de tipografias nordestinas. Eu pegava três títulos para ler no “olho” do umbuzeiro que tinha no quintal. Tinha, não. Tem. O que não tem mais é a casa. Também gostava de ouvir os contos tradicionais e os romances ibéricos, preservados por sua prodigiosa memória. Aos 9 anos li, numa versão adaptada, As Viagens de Gulliver, de Swift. Reli pelo menos umas dez vezes. Nessa época eu já criava algumas histórias em cordel, fixava no papel os contos tradicionais e desenhava uns quadrinhos toscos, depois vendidos a colegas de escola.

PILS - Você foi um garoto que aos sete anos já escrevia história de cordel, O soldado traidor. Na adolescência enviou uma história para tentar publicação na editora Luzeiro, a qual foi recusada. Hoje o garoto nordestino que sonhava ser cordelista se tornou um fato, e diga-se, de sucesso. Então, persistência e dedicação são o diferencial?

MH: Com certeza. Eu não escolhi a literatura de cordel. Fui escolhido por ela. Mas, com o passar do tempo, mesmo sem me afastar totalmente, acabei dedicando meu tempo a outras searas do fazer artístico e da pesquisa. Isso foi importante, pois, além do cordel, escrevo artigos e ensaios em outras áreas, como História, Antropologia e Filosofia. Além de ter alicerçado meus estudos sobre o Folclore, dedicando especial atenção ao conto popular. Persistência e dedicação são, portanto, fundamentais.

PILS - Você é natural de Riacho de Santana, passou a maior parte da vida entre Igaporã e Serra do Ramalho, estudou o Ensino Superior em Caetité, todas cidades do sertão da Bahia. Como estas diferentes e ao mesmo tempo, mesmas realidades contribuíram para o seu trabalho literário?

MH: Nasci na Ponta da Serra, entre Igaporã e Riacho. Você sabe que, na nossa região, para todo lado que se olha, só se vê serra. A criança precisa imaginar o que tem além das serras. Em frente à casa em que nasci está a igreja construída por meu bisavô, o Major Ramiro. Aos cinco anos, meus pais se mudaram para Igaporã, onde estudei da primeira à quinta série. Nesse período, perdi os meus bisavós paternos e, em 1984, meus pais voltaram a morar na Ponta da Serra. Nesse período, eu já sabia o que queria fazer. Eu não sabia se “escritor” era ou não profissão, mas, louco que era, decidi que, um dia, viveria das letras. A realidade descrita por você, nesse caso, exerceu sobre mim uma grande influência. O ambiente, sabemos hoje, não determina, mas condiciona E eu agradeço a Deus todos os dias o ter nascido no num pedaço do sertão-mundo de Guimarães Rosa.

PILS - Ao percorrer sua bibliografia se percebe que você escreve de forma diversificada: cordel, contos, teoria; e para diferentes faixas etárias, mas sempre voltado para a literatura e cultura popular. Como nasceu seu interesse por essa vertente literária?

MH: Acho que duas pessoas têm grande “culpa” por eu ter trilhado esta senda. De uma eu já falei. É a minha avó, D. Luzia, a melhor professora que já tive. A outra é o folclorista, historiador e etnógrafo Luís da Câmara Cascudo, que, por quase cem anos, iluminou esse planeta. A obra monumental de Cascudo é a súmula da cultura nacional. Jamais haverá, no Brasil ou em qualquer outro país, pesquisador mais prolífero.
A Lenda do Saci-Pererê em cordel, adotado pelo SESI Mauá e pelo Liceu José Thiene

PILS – Sua ficha bibliográfica já é bem extensa. Apresente-nos alguns dos seus livros.

MH:Gosto demais de minha produção de cordel em folhetos. O meu favorito é As Três folhas da Serpente, baseado num conto menos conhecido dos Irmãos Grimm, enriquecido com referências sutis a antigos ritos funerários e da fertilidade, estudados por Wallis Budge, James Frazer e Vladimir Propp. No campo da literatura infantil e juvenil, tenho vários títulos publicados e outros tantos no prelo. Todos têm por base o cordel ou a cultura popular. Contos Folclóricos Brasileiros e Contos e Fábulas do Nosso Folclore são minha principal contribuição, por enquanto, à cultura popular brasileira. O meu xodó agora é a antologia Meus Romances de Cordel, publicada pela Global, que reúne sete títulos, escritos em diferentes etapas de minha caminhada poética.

PILS - Em Contos Folclóricos Brasileiros você traz uma coletânea de contos populares coletados na região. São os típicos causos que escutamos dos avós, pais, amigos, etc. considerados, muitas vezes, como algo de menor valor. Mas você fez um estudo detalhado de comparação com outras versões existentes já classificadas no ATU, demonstrado que os contos orais que circulam por aqui tem raízes em outras culturas. Fale um pouco sobre esse trabalho.

MH: Boa parte dos contos reunidos neste livro foi ouvida na infância. Outros fazem parte de um trabalho mais recente, que inclui recolha, transcrição e estudo das variantes e versões. São, com as naturais modificações impostas pelo tempo ou pelo espaço, as mesmas histórias contemporâneas da Índia dos Vedas ou no Egito dos faraós. Alguns serviram de fonte para autores como Shakespeare, Boccaccio, Rabelais etc. Derivam, em alguns casos de mitos formadores. Em outros, explicam muito sobre os diferentes estágios civilizatórios. São, em suma, o retrato da alma coletiva.

PILS - Ano passado, além de Contos Folclóricos Brasileiros, você lançou o livro Breve Histórico da Literatura de Cordel. Como é trazer um livro de teoria sobre o cordel num país em que ele, supostamente, é visto como algo menor?

MH: Acho que ele existe mesmo por conta disso. Apesar de estar na base da formação cultural do Brasil, o cordel sempre foi visto como literatura menor, especialmente no meio acadêmico. O poeta de cordel, de certa forma, se acomodou e aceitou o papel que lhe era destinado. Aceitou, inclusive, o gueto da “poesia popular”, determinado por Patativa do Assaré no poema matuto “Cante lá que eu canto cá”. Mas, mesmo assim, há vozes dissonantes: autores que têm consciência do papel identitário da arte que professam, o que não significa submeter-se á camisa de força linguística ou ao confinamento geográfico.

PILS - Você usa a expressão “gueto da ‘poesia popular”, . Em Crítica sem juízo, Luiza Lobo traz uma citação de Miriam Alves na qual se refere à literatura de temática afro. Ela diz: “o que nós poetas negros vivemos hoje não é um gueto. Gueto é quando se é segregado pelos outros. Hoje nós vivemos o quilombo; a revolta que nós mesmos provocamos (...)”. Assim, cogito: Patativa não estaria se referindo a este espaço que Mirian chama de “quilombo”, ou seja, um lugar escolhido, no qual se busque a preservação da identidade e a própria sobrevivência?

MH: Acredito, no caso do Patativa, tratar-se de outra coisa. Quem o conheceu diz que ele sabia muito bem se autopromover. O que, convenhamos, é uma qualidade. Ele era realmente um poeta camponês. Mas era um poeta camponês que leu Os Lusíadas e sabia de cor vários poemas de Castro Alves. O problema é que pesquisadores desavisados, a partir da fixação de estereótipos, acredita que a preservação de determinadas manifestações tradicionais – e alguns equivocadamente incluem nesse rol o cordel – dependem do isolamento cultural e geográfico. Como, se Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, Francisco das Chagas Batista, para se fazerem conhecidos, tiveram de migrar do sertão paraibano, entre o fim do século XIX e o começo do século XX, para o Recife? E nem por isso deixaram de ser o que eram, pois acrescentaram novos saberes, fazendo com que dessa mistura – a cultura tradicional com a livresca – nascesse a literatura de cordel.

PILS - Agora você traz Meus Romances de Cordel. O que o leitor vai encontrar neste livro?
MH: Várias faces da chamada poesia popular. Desde o romance de encantamento, presente em História de Belisfronte, o Filho do Pescador e na História da Moura Torta, até o romance picaresco, base doDecameron de Boccaccio e de obras como o Lazzarilho de Tormes e o Mercador de Veneza, de Shakespeare. No meu livro, o pícaro é o protagonista de Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo. Há, ainda, A Briga do Major Ramiro com o Diabo, em que recrio em versos uma lenda sertaneja envolvendo o meu bisavô, e Os Três Conselhos Sagrados, ambientado em Bom Jesus dos Meira, ou seja, em Brumado. Traz também o meu primeiro romance publicável, O Herói da Montanha Negra, escrito em 1987, que considero meu primeiro livro publicável. Por último, o poema Galopando o Cavalo Pensamento, composto em martelo agalopado (décimas de dez sílabas). A apresentação é da professora Vilma Mota Quintela, que conheci no Encontro Internacional de Literatura de Cordel, em João Pessoa (2005).

PILS – Marco, você poderia caracterizar a Literatura de Cordel e nos dizer como ela surgiu? Ela é reconhecida, de fato, como literatura?

MH:  Na forma como a conhecemos (com predominância da sextilha setissílaba), ela nasceu na Paraíba, com os poetas Leandro Gomes de Barros e Silvino Pirauá de Lima, ainda no século XIX, consolidou-se como atividade editorial no Recife e na região do Brejo paraibano, e espalhou-se por outras regiões do Nordeste e Norte do Brasil, levado na matula do migrante. Estou me referindo ao cordel no formato consagrado pelos autores e pela predileção popular. Mas o seu substrato, composto por contos tradicionais, romances ibéricos, a gesta carolíngia e, no Brasil, a gesta do gado, tem raízes longínquas. O nosso cordel aproxima-se, em certo ponto, da poesia popular praticada em Portugal, Espanha, França, Itália e na América Espanhola. Mas apresenta uma temática mais abrangente e dialoga desde sempre com outros gêneros literários. Ganhou, assim, uma feição própria. Quanto ao reconhecimento, ele existe. A literatura de cordel é respeitada por alguns dos maiores nomes de nossas letras. Ao mesmo tempo, enfrenta o preconceito linguístico e social de alguns gramáticos e de pretensos poetas “eruditos”. O pesquisador paraibano Aderaldo Luciano, da UFRJ, foi questionado, quando postou um artigo de sua autoria sobre a coleção Clássicos em Cordel, no blog Poesia Hoje, por um desses pretensos poetas “eruditos" sobre a “autenticidade” dos poetas “populares”. Ou seja, o cordelista precisará, a partir de agora, na opinião desse rapaz, de um atestado de “autenticidade”. Felizmente, atitudes preconceituosas partem de uma minoria.
PILS - Nas escolas, o ensino da literatura se pauta em obras clássicas, deixando de lado “tudo” que não faz parte do currículo. Na Bahia, por exemplo, não se estuda a literatura de cordel nas escolas, pelo menos não como deveria: como surgiu, as características, representantes, etc.O uso desta literatura se dá como um recurso didático ou tipologia textual que serve, muitas vezes, para falar/explicar alguns assuntos. Poderíamos chamá-la de literatura marginal. Como você pensa essa questão?

MH: Eu não chamaria o cordel de literatura marginal, mas penso que ele foi, durante muito tempo, “literatura marginalizada”. Marginalizada, pois era avaliada de acordo com a classe social que mais a consumia. Hoje, com sua difusão pelo Brasil, parte desse preconceito tem sido vencida. Para superar o preconceito, quase sempre motivado pelo medo e pala ignorância, a inclusão do cordel na sala de aula é fundamental. Eu passei cinco anos na UNEB, em Caetité, e só uma professora, Guilhermina, de Filologia Românica, abordou o assunto. Hoje, com o professor Rogério Soares além de outras iniciativas, há uma abertura, mas a realidade está longe do ideal. Aderaldo Luciano, por exemplo, advoga a inclusão do cordel no todo literário brasileiro.
Abaixo, reproduzo trecho de um estudo de Vilma Mota Quintela, que aclara muitos pontos a respeito desta “marginalização” e da tentativa de fossilização levada a cabo por alguns “estudiosos”:
“Compreender o cordel como um sistema cujas raízes se situam em práticas populares tradicionais, ou seja, não hegemônicas da sociedade, não implica, em absoluto, validar a noção ainda corrente do cordel como um produto de relações de produção cultural anacrônicas, isto é, deslocadas do contexto cultural global. Ao contrário disso, uma visada em perspectiva histórica permite observar que a existência do cordel como um sistema de produção “popular” sempre dependeu do diálogo dos seus produtores com seus diversos outros. Assim, ainda que não se confunda com o massivo, o cordel sempre agregou em seu discurso, em seu suporte e em seu sistema de divulgação mecanismos que lhe permitiram, ao longo dos anos, não apenas resistir, como também atender às injunções do mercado. Da mesma forma, embora se constitua com base na lógica da oralidade e, em princípio, tenha servido, efetivamente, a esse domínio, o cordel não deixa de refletir e mesmo de legitimar, de diversas maneiras, a preponderância política do discurso letrado.”

PILS - A Bahia é seu lugar de origem. Mas é São Paulo que acolhe e dá chances ao nordestino escritor, e mais precisamente, a um escritor de uma literatura tipicamente nordestina: o cordel. São Paulo e Rio de Janeiro ainda representam sozinhos o espaço para quem deseja crescer dentro da literatura? Como você vê a Bahia em termos de possibilidades para quem deseja viver da literatura?

MH: Essa é a pergunta mais difícil. Quando saí da Bahia a primeira vez, em 1997, pensava que, chegando a São Paulo, veria as portas das editoras escancaradas. A realidade mostrou-se em toda a sua crueza. Estive em muitas editoras, inclusive na Paulus, e não consegui “emplacar nenhuma proposta. De volta, mais maduro, em 2005, para trabalhar numa editora, a Luzeiro, especializada em cordéis, eu descobri que o problema não era das editoras. Era meu. Eu não sabia o que queria de fato. Hoje, já penso em incursões por outros campos, como o teatro e a prosa. Mas só o farei quando tiver certeza que estou pronto para dar esse salto. Em relação ao papel do Rio e de São Paulo como espaços de consolidação de carreiras artísticas, para além da literatura, penso que já foi maior. Hoje, temos iniciativas interessantes no Rio Grande do Sul, Minas e no Nordeste. Fortaleza é um exemplo. Na Bahia, lamentavelmente, falta uma editora que abarque parte da produção literária, em que pese o fato de termos alguns dos maiores nomes das letras nacionais.

PILS - A visão acerca do Nordeste é de uma região seca, sofrida e triste. Como você vê o nordeste? Ele é apenas uma região carente?

MH: O Nordeste é mais do que seca, peste, fome e coronelismo. É uma região culturalmente rica e economicamente viável.

PILS – Poderíamos pensar o Cordel como uma forma de expressão literária e cultural capaz de dizimar a visão de um Nordeste pobre, no que se refere à sua cultura?
MH:Com certeza. A região que deu ao país Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Castro Alves, Manoel Bandeira, Leandro Gomes de Barros, Luiz Gonzaga, Mestre Vitalino, Delarme Monteiro, Gonçalves Dias, merece respeito. Aliás, todas as regiões do Brasil, que tingem a nossa cultura com as cores da diversidade, merecem respeito. O cordel pode, e deve, denunciar as mazelas sociais e políticas do Nordeste, mas também mostrar a riqueza e a pujança da cultura nordestina.
No folheto Os Três Conselhos Sagrados, narrando a visão de um migrante que retorna para sua terra, após trinta anos de ausência, escrevi:

Olhou o Rio do Antônio
E ergueu ao céu uma prece,
As águas iam levando
O bem que restabelece
As forças já combalidas
De quem de Deus não esquece.
PILS - O fato de ter origem no Nordeste, e mais precisamente nas camadas populares, explica a não difusão e valorização do cordel na sociedade?

MH: Até certo ponto, sim. Mas tenhamos em mente que os cordéis no Nordeste eram lidos desde a mais humilde choupana até as casas grandes. Mas, hoje, parte dessas barreiras foi, ou está sendo, superada. A coleção que coordeno, pela Editora Nova Alexandria, a Clássicos em Cordel, é adotada em várias escolas particulares de São Paulo e de outros estados, e seus títulos estão sempre presentes em seleções de programas governamentais. As grandes editoras, aos poucos, incluem o cordel em seus catálogos. Por falta de traquejo de alguns editores, tem saído muita coisa pavorosa, embrulhada e vendida como cordel. Mas também tem saído muita coisa boa.

PILS - Você é um dos fundadores de A caravana do cordel. Explique como surgiu essa ideia, e como funciona o projeto.

Ônibus-Biblioteca, com o também cordelista Pedro Monteiro
MH: O projeto surgiu das discussões que nós, cordelistas, fazíamos com o intuito de ampliar mais ainda os horizontes do cordel na Pauliceia. Os fundadores são, além de mim, João Gomes de Sá, Frei Varneci Nascimento, Costa Senna, Nando Poeta, Pedro Monteiro, Cacá Lopes. Depois vieram outros autores. A primeira apresentação aconteceu em Guarulhos, em 2008, num evento chamado Salão da Literatura de Cordel, coordenado pelo poeta João Gomes de Sá. A partir de julho de 2009, a Caravana passou a se apresentar no Espaço Cineclubista da Rua Augusta. A partir daí, com grande presença de público, seus membros se dividiram em muitas atividades, algumas delas realizadas em outros estados. Homenageamos poetas como Leandro Gomes de Barros, Antônio Teodoro dos Santos e Chagas Batista Se eu disser que, em alguns momentos, não houve atritos, estaria sendo hipócrita. Houve, sim, e isso contribuiu para o crescimento dos membros da Caravana. Aliás, eu sempre vi a Caravana, não apenas como um grupo de poetas, mas como um movimento. Mais do que isso, um conceito. Tanto que escrevi um texto sobre o movimento reproduzido no livro Acorda Cordel na Sala de Aula, organizado por Arievaldo Viana. E dediquei um espaço privilegiado no meu livro Breve História da Literatura de Cordel. Existe até um trabalho acadêmico de Francisca Batista, enfocando o movimento. Por isso, creio que o saldo é altamente positivo.

PILS – Além do trabalho literário, as palestras e projetos, você ainda mantém o blog Cordel Atemporal, que não apenas divulga seu trabalho, mas tudo que se refere á Literatura de cordel e à cultura popular. Tem sido um espaço frutífero?


MH: O Cordel Atemporal é um espaço abrangente que vai além do meu trabalho. É uma ponte para outras manifestações culturais, como o cinema o teatro e as artes plásticas. Se eu reproduzo, num artigo sobre a presença de São Pedro na tradição popular, um quadro de Caravaggio, abro uma janela para o leitor conhecer ou reencontrar esse mestre do Barroco italiano. Apesar do tempo escasso, sempre o atualizo. O conteúdo do blog abrange resenhas, indicações de leituras, ensaios e informações do universo do cordel e da cultura popular. As estatísticas apontam que o Cordel Atemporal é lido em países como Portugal, Estados Unidos, Turquia e Holanda. Possivelmente por brasileiros que moram nestes países.
PILS - Pelo que você fala, e pelo que tenho lido e observado, o cordel tem ganhado muita força ultimamente. Sei que para isso há muita dedicação de cordelistas e pesquisadores em levar esta riqueza cultural aos mais variados espaços. Teremos em breve uma novela que de alguma forma abordará o mundo do cordel. Você acredita que esse espaço aberto na TV pode alavancar uma “redescoberta” do cordel? Podemos pensar a novela como algo positivo para uma nova safra de leitores e pesquisadores nessa área literária?

MH: Acho positivo. O resultado, não dá para adivinhar, mas, do ponto de vista de divulgação, será muito bom. Não espero que a novela Cordel Encantado leve ao grande público a riqueza temática do cordel, até porque, antes de se propor a divulgar esse ou aquele gênero, a novela deve narrar uma história dentro dos parâmetros estabelecidos por uma emissora, no caso, a Globo. Não sei se a novela em si despertará o interesse pela literatura de cordel, como afirmei acima. Se a produção fugir do estereótipo e do falso pitoresco, certamente será um sucesso. Acho que a presença do cordel na trama global será mais conceitual do que estética.

PILS - O Pesponteando e eu nos sentimos honrados em tê-lo conosco falando sobre literatura. Obrigada! A palavra agora é sua...


MH: Deixo minha saudação
Aqui no Pesponteando,
Mesmo a prosa já findando,
Foi grande a satisfação.
Porém nada foi em vão,
Pois falamos da Bahia,
Louvamos a poesia
E outras artes brasileiras;
Viva o cordel sem fronteiras –
Adeus e até outro dia!

Paula, agradeço o espaço e a oportunidade, feliz por fazer parte de seus retalhos literários.
 

Sobre o autor:
Marco Haurélio, poeta e folclorista, nasceu na localidade Ponta da Serra, município de Riacho de Santana, sertão da Bahia, aos 05 de julho de 1974. Desde muito cedo entrou em contato com a literatura de cordel, escrevendo a primeira estória com apenas seis anos de idade. Hoje, Marco Haurélio é uma das grandes referências nacionais da literatura popular, como poeta ou estudioso da mesma. Ministra palestras e realiza oficinas sobre cordel e cultura popular. Mantém o blog Cordel Atemporal(clique aqui). Atualmente coordena a Coleção Clássicos em Cordel, da editora Nova Alexandria. Sua bibliografia é composta pelos seguintes títulos:

Publicados pela Editora Luzeiro
 

• Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo
 
• Os Três Conselhos Sagrados
 
• História de Belisfronte, o Filho do Pescador
 
• O Herói da Montanha Negra
 
• A Idade do Diabo
 
• História da Moura Torta
 
• Nordeste – Terra de Bravos
 
• Serra do Ramalho – um Brasil que o Brasil Precisa Conhecer
 
• Romance do Príncipe do Reino do Limo Verde
 
• A Briga do Major Ramiro com o Diabo
 
• As Três Folhas da Serpente
 
• O Cordel – Seus Valores, Sua História
 (com João Gomes de Sá) 

Publicados pela Tupynanquim

 Galopando o Cavalo Pensamento 
• Traquinagens de João Grilo
 
• A Maldição das Sandálias do Pão-Duro Abu Kasem
 
 As Três Folhas da Serpente (segunda edição) 

Publicado pela editora Queima-Bucha
 

 Cem Anos da Xilogravura na Literatura de Cordel (com Arievaldo Viana) 

Publicado pela editora Olho Dágua

 Jesus Brasileiro (com Costa Senna) 

Infantis e infantojuvenis
 

 O Príncipe que Via Defeito em Tudo (Ed. Acatu) 
 A Lenda do Saci-Pererê em Cordel (Paulus) 
 A Megera Domada (Ed. Nova Alexandria) 
 Os Três Porquinhos em Cordel (Nova Alexandria) 
 Lendas do Folclore Capixaba (Nova Alexandria) 
 Traquinagens de João Grilo (segunda edição, Paulus) 
 As Babuchas de Abu Kasem (Ed. Conhecimento) 
 O Conde de Monte Cristo em Cordel (Nova Alexandria) 
 A Roupa Nova do Rei ou O Encontro de João Grilo com Pedro Malazarte (Nova Alexandria, prelo) 

Folclore e estudos da poesia popular
 

 Contos Folclóricos Brasileiros (Paulus) 
 Contos de Fadas Brasileiros (inédito) 
 Contos e Fábulas do Nosso Folclore (Nova Alexandria; prelo) 
 Breve História da Literatura de Cordel (Claridade) 
 Lá Detrás Daquela Serra (Cantos populares; inédito) 
 Meus Romances de Cordel (antologia, Global Editora)

Nota do blog: entrevista publicada em 8 de abril de 2011.


***
Conheça, clicando aqui, o blog do meu novo livro livro, Contos e Fábulas do Brasil.

Mote Gonzagueano



                        Capa de Jô Oliveira


São João, entre outras coisas, lembra Luiz Gonzaga. E me fez lembrar de um cordel que organizei, lançado pela Luzeiro, nos 60 anos da canção Asa Branca. O folheto foi lançado literalmente na Praça da Sé, em evento coordenado por Assis Ângelo.  O mote é meu e foi glosado por poetas da estirpe de Mestre Azulão, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana, Oliveira de Panelas, João Paraibano, Valdir Teles e Klévisson Viana.

As estrofes de minha autoria são as que seguem abaixo:

Nos meus versos de cunho popular
Busco n’alma divina inspiração,
Porque é de Luiz, Rei do Baião
Que agora os poetas vão falar,
E o Brasil sertanejo vai mostrar
Que não é desprovido de memória,
Relembrando a incrível trajetória
De um mito que o tempo não desbanca –
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Dos acordes de um grande brasileiro,
Um intérprete da alma de seu povo,
Sai um canto que sempre será novo,
Amoroso, sincero, alvissareiro.
Entre os hinos do seu cancioneiro,
O que fala duma ave migratória
Conferiu a Luiz eterna glória
Para além desta vida que se estanca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Eu também levo o fardo do migrante
Carregando amor com melancolia,
Que abastecem a minha poesia,
Semeada em terra tão distante.
E se a vida me fez um retirante,
Não me rendo à tão cruel escória,
Antes canto a verve meritória
Que ao gênio, lhe serve de alavanca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

História da Literatura de Cordel (em cordel)



Acaba de sair a segunda edição do folheto O Cordel: sua história, seus valores, que escrevi junto com João Gomes de Sá. 

Abaixo o introito do livro:

No Nordeste brasileiro,
Conservados na memória,
Romances, contos e xácaras
Lembravam a antiga glória
De Portugal e da Espanha,
De que nos fala a História.

Era esse o tempo das gestas
Dos cavaleiros andantes,
E essa poesia rude
Dos bardos itinerantes
Foi trazida para a América
No bojo dos navegantes.

Essa poesia foi
Cantada pelos jograis,
Celebrando os grandes feitos
Dos heróis medievais,
E também falando sobre
Romances sentimentais.

E quando começa o ciclo
Das Grandes Navegações,
De Portugal e da Espanha,
As antigas tradições
Vão se acomodando aos poucos
Pelas novas possessões.

No Brasil, as tradições
Assim vão se fixando,
Com as levas de colonos
Nas caravelas chegando,
As regiões litorâneas
Vão pouco a pouco tomando.

O índio, dono da terra,
Pra não ser escravizado,
Vivendo no litoral
E se sentindo acossado,
Resiste, contudo vê
O seu esforço baldado.

Da África chegam os navios
Dos traficantes negreiros,
Que tornarão em escravos
Os que antes eram guerreiros
E que agora vão servir
À sanha dos fazendeiros.

As etnias e as crenças
São assim amalgamadas
E a cultura popular
Vai recebendo camadas,
Que em todos os segmentos
Até hoje são notadas.

Eis um resumo apressado,
Contudo bem consistente
Para mostrar que a arte
Não brota espontaneamente,
E com o nosso cordel
Também não é diferente.

No Brasil colonial
Um embrião já havia
Do cordel na conhecida
Tradicional poesia,
Ou mesmo na catequese
Que a Igreja promovia.

Excertos da tradição
Que no bom cordel se encerra
Estão na obra do vate
Gregório de Matos Guerra,
Que foi o maior dos sátiros
A habitar esta terra.

Já no século XIX,
No Brasil imperial,
Resistia a escravidão,
Um desnecessário mal.
Esse regime abjeto
Na pena teve um rival.

Foi o bardo Castro Alves,
Grande poeta baiano,
Que na arte que abraçou
No Brasil é soberano,
Lutando contra a injustiça,
No verso se fez arcano.

O grande Gonçalves Dias,
Dos termos do Maranhão,
Compôs na velha linguagem
Sextilhas de Frei Antão.
Portanto, também está
Na linha de evolução.

Porém é da pequenina
Paraíba o privilégio
De ver nascer o poeta
Que empunha o cetro régio
Da poesia do povo,
Templo majestoso, egrégio.

Leandro Gomes de Barros
É o nome do menestrel
Que deu forma e deu essência
Ao que chamamos cordel,
Que da tradição oral
Migrava para o papel.

Grande poeta satírico
E lírico maravilhoso,
Escreveu obras eternas
Como O Boi Misterioso,
E A Donzela Teodora,
De modo criterioso.

De sua lavra saíram
O Reino da Pedra Fina,
Também O Príncipe e a Fada,
Que são Baman e Gercina
E o clássico inigualável
Chamado Alonso e Marina.

(...) 

Para pedir este e outros títulos clássicos e contemporâneos, entre em contato com a Editora Luzeiro:

Editora Luzeiro Ltda
R. Dr. Nogueira Martins, 538
CEP.: 04143-020 Saúde
São Paulo – SP
Fone: (011) 5585-1800
E-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br

Pedro Paulo Paulino e o cordel encantado

O MEU CORDEL ENCANTADO

Por Pedro Paulo Paulino


O meu cordel encantado

Está na televisão

Que eu trago sintonizada

No canal do coração,

Desde as primeiras leituras,

Com as imagens mais puras

Das coisas do meu sertão.


O meu cordel encantado,

Eu sempre tenho assistido

No dia a dia do povo

Deste Nordeste sofrido:

Um cordel risonho e franco,

Umas vezes, preto e branco,

Outras vezes, colorido.


O meu cordel encantado,

Repleto de poesia,

Está lá numa escolinha

Onde aprendi certo dia

O á-bê-cê e a tabuada,

Sem qualquer norma empregada

Na atual pedagogia.


O meu cordel encantado

Inda está sobre o balcão

Da bodeguinha modesta

Do meu pai, lá no sertão,

Onde à tarde, sem faltar,

Lia para ele escutar

Versos sobre Lampião.


O meu cordel encantado

Inda está na poesia

Cativante do romance

Coco Verde e Melancia,

No Malazartes Jocoso,

No Pavão Misterioso,

Que também pra ele eu lia.


O meu cordel encantado

Que conservo sempre eterno,

Pela mão que o escreveu,

Já nasceu velho e moderno,

Com metro e rima apurada,

Tem como exemplo, A Chegada

De Lampião no Inferno.


O meu cordel encantado

Tem bastante sensação,

Faz rir, como faz chorar,

Se lido com emoção.

O meu cordel tem sinônimo

Na história de Jerônimo

- O Grande Herói do Sertão.


O meu cordel encantado

Tem sentido e tem roteiro.

Grinaura e Sebastião,

Um romance verdadeiro.

Com saudade, sinto abalo

Ao lembrar certo cavalo

Que defecava dinheiro.


O meu cordel encantado

Eu lembro a todo momento.

Pela grandeza que tem,

Contagia o sentimento,

É feito com perfeição,

Como A Vida de Cancão.

E seu rico Testamento.


O meu cordel encantado

Que eu lia na infância minha

Era o mesmo que se lia

Numa casa de farinha,

Romance de drama e glória,

Tal como a bonita história

Do Pedrinho e a Julinha.


O meu cordel encantado

Que recordo com fervor

Está na bolsa de palha

Pendurada no armador.

Dali tirei, li também

A Vida de Pedro Cem

E O Soldado Jogador.


O meu cordel encantado

Que recordo com carinho,

De tanto ler, decorei

Cada verso direitinho.

Este sim, teve respaldo:

A Peleja de Aderaldo

E o cantador Zé Pretinho.


O meu cordel encantado

Que minha gente ainda estima

Tem pureza totalmente

E tem capricho na rima.

É primoroso o estilo

Das Proezas de João Grilo,

De João Ferreira de Lima.


Roldão no Leão de Ouro,

Recordo com emoção.

Quem não lembra do cordel

José de Sousa Leão?

Cada história era mais bela,

Como o Valente Vilela,

Juvenal e o Dragão.


Em Romeu e Julieta,

Todo encantamento tinha

Essa história que em cordel

Contaram dentro da linha.

Também li, quando menino,

As Bravuras de Justino

Pelo Amor de Teresinha.


Tem A Festa dos Cachorros,

Um cordel muito jocoso;

Batalha de Ferrabraz,

Outro cordel primoroso.

No cordel do meu sertão,

Tem até um Riachão

Que cantou com o tinhoso!…


O meu cordel encantado

Encontra-se lá na feira,

Contando história bonita,

Sem propaganda rasteira.

Está na boca do povo,

Desde o mais velho ao mais novo,

Como arte verdadeira.


O meu cordel encantado,

Expresso de forma pura,

É casamento perfeito

De verso e xilogravura.

É folheto de papel,

Não folhetim de cordel

- É nossa literatura!


O meu cordel encantado,

Feito com simplicidade,

Mas rico de conteúdo

E muita autenticidade,

Dispensa luxo e requinte:

Quem assim faz, faz acinte

À nossa sinceridade.


Leandro Gomes de Barros,

Zé Pacheco, João Firmino,

Dentre outros grandes mestres

Do cordel tão nordestino,

Seja lá em qualquer parte,

Socorram já sua arte

Das mãos de tanto assassino.


Livrem-na principalmente

Do poder da Rede Globo,

Que pegou nosso cordel

Pra devorar feito um lobo,

Deturpando e corrompendo,

A todo custo querendo

Fazer a gente de bobo.


Salvem também o cordel

Das mãos de tanto pateta

Que rima “Europa” com “trova”

E rima “cesta” com “seta”,

Falsários e vigaristas,

Mil vezes mercantilistas

E nenhuma vez poeta.


Não tem cordel encantado,

Se não tem encantamento.

Cordel é próprio do povo,

Não precisa paramento.

Sendo bem-feito, afinal,

Soa tão bem natural,

Como soa o próprio vento.


O meu cordel encantado

Eu vou repetir, enfim:

Não precisa refletor,

Estúdio nem camarim.

Está na televisão

Do canal do coração

Que eu trago dentro de mim.


Obs.: Versos dedicados aos verdadeiros poetas que hoje tocam com inspiração e verdade a Literatura de Cordel, dentre eles, Arievaldo Viana, Jota Batista, Gonzaga Vieira, Rouxinol do Rinaré, Geraldo Amâncio, Zé Maria, Wanderley Pereira, Evaristo, Marco Haurélio, Manoel Belizário e outros bons desse time. Que me perdoem não enumerar todos, prova de que ainda temos muitos vates de primeira.