quinta-feira, 31 de julho de 2014

Para entrar com o pé direito no mês do Folclore

Alvíssaras! Acaba de ser publicado, com o selo da Cortez Editora, meu novo livro, Quem conta história de dia cria rabo de cutia, lindamente ilustrado por Claudia Cascarelli. Abaixo, a apresentação que explica o porquê do título inusitado.


Muita história pra contar

O escritor paulista Mário de Andrade, em Macunaíma, sua obra mais famosa, utilizou uma expressão muito conhecida dos narradores de contos populares: “Quem conta história de dia cria rabo de cutia”. Mais do que mera superstição, a frase nos faz lembrar de que os contos populares costumam se difundir mais entre os povos sem escrita. Ainda que fizessem uso da escrita, as populações rurais, por exemplo, sempre dedicaram o dia principalmente ao trabalho na lavoura. À noite, em volta da fogueira ou sob a luz do lampião – ou mesmo durante trabalhos feitos em casa, como a debulha do feijão ou a descasca do milho –, apresentava-se a melhor ocasião para se narrar as histórias que corriam de boca em boca, nascidas ninguém sabe onde, trazidas ninguém sabe por quem.

A única coisa que sabemos é que o hábito de contar histórias pertence a todos os povos desde tempos imemoriais. E a fogueira em torno da qual os contadores e ouvintes se reuniam, além de aquecer durante os invernos rigorosos, servia para afastar os animais selvagens. Os nossos contadores de histórias, hoje tão raros por causa da concorrência dos meios de comunicação eletrônicos, quando se negam a contar histórias sob a luz do sol, aproximam-se de seus antepassados, como os autores anônimos do livro das Mil e uma noites.

Nasci e passei os primeiros anos de minha vida em uma fazenda chamada Ponta da Serra, no sertão da Bahia. A maior diversão, minha e de meus irmãos, era escutar as histórias contada pela avó Luzia. Ela era capaz de contar histórias durante a noite toda sem repetir uma sequer. E, por mais que me esforce, não me lembro de uma única vez em que ela tenha contado histórias durante o dia. Mas, no início da noite, quando íamos buscar estrume de gado que, queimado, servia para espantar os mosquitos que surgiam com o entardecer, as histórias da avó Luzia pareciam jorrar de uma fonte inesgotável.

A lembrança desse tempo fez nascer o poema que batizei com o nome do dito popular que corre na boca do povo – como as histórias que ajudaram a definir a minha caminhada na vida e na arte.

As estrofes iniciais do livro, composto por quadras setissílabas:

De vez em quando retorno
No tempo, sem retornar.
Quero dizer que viajo,
Mas não saio do lugar.

Nessas viagens que faço,
Entro no trem da saudade,
Que corre sempre ao contrário
Dos trens da grande cidade.

A viagem dura pouco,
Pois, apesar da distância,
O pensamento conduz
Para a Estação da Infância.

E, assim que chego, me vejo
Correndo livre nos campos,
Onde a noite é governada
Pela luz dos pirilampos.

E ouço minha avó chamando,
De modo bem carinhoso:
“Venha, meu filho, escutar
Outra história de trancoso”.


O livro,como vocês podem notar, é uma viagem de retorno ao País da Infância, de que falava mestre Câmara Cascudo. E é dedicado a todos os contadores de histórias que continuam a remexer no baú da tradição. 



O livro Quem conta história de dia cria rabo de cutia será lançado no próximo sábado, às 11h, na Livraria Cortez, rua Monte Alegre,1074. Na ocasião, haverá contação de histórias com o mestre Valdeck de Garanhuns.

2 comentários:

Cristina Sá disse...

Olá!Marco Haurélio,

Parabéns por mais este
lançamento!"QUEM CONTA
HISTÓRIA DE DIA CRIA
RABO DE CUTIA".

Estou passando por
aqui, para lhe avisar
que estou divulgando
no meu blog e no meu
G+ o evento programado
pela EDITORA NOVA
ALEXANDRIA para homenagear
O DIA DO CORDELISTA, no
próximo sábado, dia 02/08,
na sede da editora.
Sucesso!
Cristina Sá
BLOG:
cristinasaliteraturainfantilejuvenil.blogspot.com.br/2014/07/convite-venham-comemorar-o-dia-do.html
G+:
google.com/+CristinaSá

Marco Haurélio disse...

Oi, Cristina. Obrigado pela visita e pela divulgação. Vou linkar seu blog ao Cordel Atemporal. Abraços!