quinta-feira, 7 de julho de 2011

Work shop de cordel no Tendal da Lapa


Da amiga Cleusa Santo recebi, por e-mail o seguinte convite, que agora divulgo:


Work Shop de Cordel
Com certificado
Dia:

16 de Julho de 2011

Das:

13 às 17 horas


        Progamação:

 ü  Das 13 às 14h - Pioneirismo do cordel – Poeta Josué Araujo

 ü  Das 14 às 14.30 - Recital de textos em cordel com a poetisa Cleusa Santo                                                         
 ü  Das 14 .30 às 15.30 Métrica do cordel com o poeta Josué  Araujo

 ü Das 15.30 às 16 h Cordel em outras modalidades com a poetisa Cleusa Santo

 ü  Das 16 às 16.15 intervalo para um café    

 üDas 16 .15 às 16 .50 construção de um  verso em cordel, com os participantes.

     No Tendal da Lapa
Rua Guaicurus 1100 ou entrada pela rua Constança 70

Bairro Lapa

Fone: 3862.1837


OBS: Inscrição no dia , chegar  15 minutos antes ou pelo  email



( Cleusa Santo)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O pássaro de fogo: uma lenda dos índios temiminós

Ilustração: Eduardo Azevedo

Mais uma vez vou à fonte
Das antigas tradições
Que formam a base das
Velhas civilizações,
E que, no tempo e no espaço,
Sem mostrar qualquer cansaço,
Lega-nos belas lições.

Esta lenda se refere
Aos índios temiminós.
Impelida pelo vento,
Ela chegou até nós.
Relatos encantadores
Nas vozes dos narradores,
Avós dos nossos avós.

O cenário desta lenda
Que envolve povos em guerra
Hoje abrange os municípios
De Cariacica e Serra:
No rico chão capixaba
Vivia um morubixaba
Que era o mais bravo na terra.

Era o pai duma princesa
Chamada de Jaciara,
Um primor da natureza,
Uma esmeralda tão rara,
Que um bravo temiminó,
Ao vê-la no mato só,
Seu coração quase para.

Mas havia um empecilho
Pra que o amor consumasse:
Os pais dos jovens jamais
Consentiriam no enlace.
Guaraci e Jaciara
Não se viam cara a cara,
Não se olhavam face a face.

O jovem ainda tentou,
Com presentes cordiais,
Agradar o pai da moça,
Porém, com planos fatais,
O destino não deixava,
Pois o cacique bradava:
— Somos de tribos rivais!

Não consentirei jamais
Nessa união malfadada.
Prefiro ver minha filha
Antes morta que casada
Com um vil temiminó,
Porque persigo sem dó
Essa gente desgraçada!

E recrutou os guerreiros
Que julgava de valor
Pra criar uma barreira
Com propósito traidor
De impedir que Guaraci
Chegasse perto dali,
Falasse com seu amor.

Todavia apareceu
Um pássaro misterioso,
Que do par apaixonado
Foi correio valioso:
Para a princesa levava
As cantigas que entoava
O guerreiro valoroso.

Do mesmo modo levava
As mensagens da princesa,
As juras de amor eterno
Adornadas de beleza.
O mesmo pássaro trazia
A bonita melodia
Da deusa da Natureza.

O mensageiro celeste
Vez ou outra os conduzia
A duas elevações,
Onde levava e trazia
As cantigas dos amados,
Segredos de apaixonados
Que só o pássaro sabia.

E nesse ir e vir constante,
Acharam de combinar
Uma fuga que pudesse
A vigilância burlar.
Porém o pai da princesa,
Desprovido de nobreza,
Um crime vai perpetrar.

Consultou os adivinhos
Mais importantes da aldeia,
Soube dos planos da filha,
Da fuga pra terra alheia...
Disse, espumando de ira:
— Eu não perdoo a mentira,
Pois tenho sangue na veia!

O chefe, então, conclamou
Um temível feiticeiro,
Que descreveu em detalhes
De Jaciara o roteiro,
Dizendo: — Bravo cacique,
Impedirei que ela fique
Feliz com o seu guerreiro.

(...)

Nota: A trágica história de amor entre um guerreiro temiminó e uma princesa de uma tribo rival deu origem a uma lenda com fortes cores europeias, apesar de retratar personagens indígenas. Assim como na lenda do frade e da freira, o castigo que vitima os jovens enamorados é a transformação em dois rochedos. O guerreiro é o Mestre Álvaro, morro imponente da cidade da Serra. A princesa é o Moxuara, localizado em Cariacica. O misterioso pássaro de fogo, que servia de correio aos dois, ainda pode ser visto, nas noites de São João, auxiliando os desventurados amantes, no único dia do ano em que recuperam a forma humana. 
___________
O pássaro de fogo é um dos poemas do livro Lendas do folclore capixaba (Nova Alexandria).

Direitos reservados ao autor.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A lenda do Sumé - em cordel

O Sumé em ilustração de Eduardo Azevedo
Quando esta terra não era
Conhecida por Brasil
E a flecha não tinha sido
Vencida pelo fuzil,
Dos valentes goitacás
Lendas de guerra e de paz
Se espalhavam em cantos mil.

No sul do Espírito Santo,
Ao crepúsculo matutino,
Certa vez apareceu
Um estranho peregrino.
Enquanto o sol despertava,
Sobre as ondas caminhava
Um ser em tudo divino.

Tinha ele barbas sedosas
Como fios de cambraia.
Surgido do mar revolto,
Caminhava para a praia.
Os índios o contemplavam,
Os mais valentes se armavam,
Postando-se de atalaia.

Quando o sábio aproximou-se,
Todos logo se acalmaram,
Pois uma expressão bondosa
No rosto dele notaram.
Contemplando o ancião,
Arcos e flechas no chão
De imediato lançaram.

Sumé, era esse o nome
Do estranho visitante,
Que talvez tivesse vindo
De um mundo muito distante,
E ali, naquele lugar,
Dispôs-se ele a ensinar
Um segredo relevante.

Pele branca, olhos azuis,
Suavidade, brandura,
As barbas caíam aos pés
Da divina criatura
Que veio aos índios mostrar
Que deviam começar
As lidas da agricultura.         

Dizia: — Meus filhos, vejam
Esses grandes empecilhos:
Somente pedras e espinhos
Se espalham por esses trilhos,
Mas a Terra é generosa
E como mãe carinhosa
Quer alimentar seus filhos.

Cacem, pesquem, colham frutos,
Com que vão se alimentar.
Aquilo que hoje tem muito
Amanhã pode faltar.
Portanto, tenham certeza,
Não tirem da Natureza
Mais do que ela pode dar.

Quem antes fora guerreiro,
Em batalhas inclementes,
Agora seguia o sábio,
De gestos tão comoventes
E a terra logo se abria,
Generosa, e recebia
As mais diversas sementes.

Passaram os dias, os meses,
Naquela semeadura,
Que proporcionaria
Uma condição segura
Ao povo que ignorava,
Mas agora dominava
Primitiva agricultura.

A terra havia mudado:
Frutos, cereais surgiam,
Cará, milho, mandioca,
Que os índios não conheciam.
Deslumbrados festejavam.
Simplesmente duvidavam
Do que os seus olhos viam.

Sumé também se alegrava,
Findos os tempos cruéis.
As feras mais bravas vinham,
Mansas, deitar-se aos seus pés.
A Natureza sorria
Ao povo, que a protegia
Como devotos fiéis.

Mas o pajé invejoso,
Um grande temor aflige-o:
Com a chegada do santo,
Perdera muito prestígio.
Movido pela vaidade,
Conclama a comunidade
Para que entre em litígio.

— Como pode? — perguntava —
Um povo antes guerreiro
Abaixar-se servilmente
Às ordens de um forasteiro?
Onde está sua bravura?
Perdeu-se pela loucura
Desse estranho aventureiro!

Ele quer nos tornar fracos
Pra depois nos dominar!
Assim, as outras nações
Poderão nos derrotar.
Atentem para o que digo:
Expulsemos o inimigo
De volta pra o seu lugar.

Nem todos deram apoio
Às palavras do pajé,
Mas este homem invejoso,
Movido pela má fé,
Espalhou maledicência,
Pagando com violência
A bondade do Sumé.

(...)

Nota: O Sumé é um personagem da mitologia tupi, um civilizador branco que teria vivido entre os índios, aos quais ensinou, entre outras coisas, o cultivo da terra. Mas, passado o tempo, vendo-se perseguido pelos  tupinambás, retirou-se para a região andina. A rota do Sumé ficou conhecida como Peabiru, o Caminho da Montanha do Sol. O fato que descortinou a lenda teria ocorrido bem antes da chegada dos portugueses ao Brasil.  

Os padres jesuítas, encarregados da catequese dos índios desde o século XVI, identificaram o personagem com o apóstolo Tomé, que teria atravessado o Atlântico e pregado o cristianismo entre os primeiros habitantes do território que viria a ser o Brasil.

A lenda recontada em nosso livro, no entanto, descreve um ancião que surge no mar e caminha em direção à terra, onde é bem recebido pelos índios (goitacás), a quem ensina os segredos da agricultura. Sua expulsão se deve aos ardis de um pajé invejoso. Essa narrativa, de clara reelaboração literária, aparece no livro Lendas capixabas, de Maria Stella de Novaes. O Sumé termina por retornar pelo mesmo caminho, o Atlântico, deixando desolados os goitacás, punidos por sua ingratidão.
__________
A Lenda do Sumé é um dos poemas do livro Lendas do Folclore Capixaba (Nova Alexandria).

domingo, 26 de junho de 2011

Um folheto de cordel e a possível origem do personagem João Grilo

Folheto editado pela Tupynanquim
com capa de Klévisson Viana

Théo Brandão, folclorista alagoano de nomeada, no estudo Seis contos populares do Brasil, dedicou várias páginas a um conto de comprovada universalidade. Não só o conto, mas o seu protagonista também aparece em vários lugares. A história do adivinhão que se vale mais da sorte do que da astúcia vem da mesma seara onde Câmara Cascudo recolheu Adivinha, adivinhão, arrolado entre os Contos tradicionais do Brasil.  O motivo central chegou-nos de Portugal, embora seja corrente na tradição oral de vários países, como Itália, França, Noruega e até mesmo a distante Mongólia. Encontramos, ainda, O velho e o tesouro do rei, dos Contos populares do Brasil, de Silvio Romero, e O Dr. Grillo, dos Contos da Carochinha, do pioneiro Figueiredo Pimentel. As ocorrências são muitas, incluindo até uma variante alagoana, Estória de João Grilo, recolhida e divulgada por Théo Brandão, em 1954, reproduzida depois no estudo já citado.

O adivinhão que recebe do rei a incumbência de encontrar um ladrão misterioso é personagem de um folheto de autoria de Pedro Monteiro: João Grilo, um presepeiro no palácio.  É o mesmo amarelinho de incontáveis histórias de cordel, a começar pelo clássico Proezas de João Grilo, de João Ferreira de Lima, publicado originalmente como Palhaçadas de João Grilo, em 1932. E que, em 1956, entrará, com pompa e circunstância, para a história do teatro brasileiro como o protagonista da peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Personagem encontradiço nos contos populares portugueses, nas coleções de Consiglieri Pedroso (História de João Grilo) e Teófilo Braga (João Ratão ou Grilo), a menção mais antiga que conheço está na introdução do Pentamerone(1634-36), de Giambattista Basile. Este autor nos fala, de passagem, de certo Maestro Grillo, protagonista de uma obra cômica, Opera nuova piacevole da ridere de um villano lauratore nomato Grillo, quale volse douentar medico, in rima istoriata (Veneza, 1519). Grillo, fingindo-se de médico, faz com que uma princesa sisuda ria pela primeira vez. Angelo de Gubernatis, na Mitologia zoológica, segundo Teófilo Braga, afirma: “Na Itália,  quando se propõe um enigma para ser adivinhado, ajunta-se ordinariamente como conclusão as palavras – Indovinala, grillo!  (adivinha, grilo)”.[1] Orientalista, Gubernatis, fazendo coro aos estudiosos de seu tempo, associa a expressão ao idiota fingido que acaba por revelar-se esperto, interpretando-o como o sol que, mesmo envolvido na nuvem, ou durante a noite, a tudo vê. Um evidente exagero. Mas a expressão popular vem ao encontro do João Grilo adivinhão que figura, além do folheto de Pedro Monteiro, na última parte das Proezas de João Grilo.
Xilogravura de Erivaldo para a Antologia do Cordel Brasileiro (Global Editora)


Então, reproduzo, abaixo, um trecho do folheto de Pedro Monteiro que, pelas  evidências apresentadas, tem tudo para se tornar um cordel atemporal. Trata da saída de João Grilo do sertão e de sua chegada à corte, onde, por obra do destino, torna-se adivinho:

Largando-se mundo afora,
Com seu pobre matulão,
Pensando vencer na vida
Inventou a arrumação,
De oferecer serviços
Dizendo-se adivinhão.

Depois de andar mil léguas,
Um palácio ele avistou,
Pediu para pernoitar,
O rei de pronto aceitou.
Foi então que o João Grilo
Ligeiro se apresentou.

Como um bom astucioso
Passou-lhe logo a conversa!
O rei ficou inseguro
Não vendo ali controversa;
Mesmo se achando cercado
De muita gente perversa.

Prontamente acreditando
Ser ele um adivinhão,
Disse-lhe: — Meu bom rapaz,
Vens em boa ocasião;
Vejo que este palácio
Está cheio de ladrão.

Tenho notado o sumiço
De joia e de muito ouro,
Diamantes dos mais raros
Avaliado um tesouro,
Eles não têm dado tréguas
Nem pros tapetes de couro!

E ordenou a João Grilo:
— Você não entre em dilema,
Descobrirá os larápios,
Desvendará seu esquema.
Se não descobrir, verá
O tamanho do problema!

Porque se não o fizer,
Não sairá daqui vivo...
E trate de adivinhar
Se não, terei um motivo
Pra querer sua cabeça,
Ou tomá-lo por cativo.

O autor não se esquece de  citar uma das fontes a que recorreu: o grande etnógrafo Câmara Cascudo:

Mestre Câmara Cascudo
 Fez a catalogação
 Desta pérola recolhida
 Na fonte da tradição,
 Fincada lá nos guardados
 Da nossa imaginação



[1] BRAGA, Teófilo. Contos tradicionais do povo português, v. 1, p. 271.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Herói de Três Faces

Capa de autor desconhecido (ao menos para mim,
que, ao chegar à Luzeiro, já a achei pronta)
Capa de Klévisson Viana  para a segunda
edição do romance
Gravura de Luciano Tasso para a obra
Meus romances de cordel (Global )

Tenho, como muitos sabem, um carinho especial pelo romance O herói da Montanha Negra. O motivo: leia a nota introdutória ao romance publicada no livro Meus romances de cordel, São Paulo: Global, 2001, p. 24:

O herói da Montanha Negra foi escrito em 1987. Foi o primeiro texto em cordel que escrevi e considerei publicável. Guardo, com muito carinho, os originais, que trazem alguns desenhos também meus. A inspiração? Mitos da Grécia Antiga, a HQ A Espada Selvagem de Conan e filmes do gênero sword and sorcery (“espada e bruxaria”). Em 1989, enviei o texto datilografado à editora Luzeiro, de São Paulo. Poucas semanas depois, recebi de volta o texto, acompanhado de uma carta do então diretor da editora, Arlindo Pinto de Souza, em que lamentava não poder publicá-lo devido à grande quantidade de originais no prelo. Em 2005, a convite de Gregório Nicoló, novo proprietário da Luzeiro, assumi o departamento editorial. No início de 2006, saiu a primeira edição do cordel, com capa em policromia. Em 2009, veio a segunda edição, com capa assinada por Klévisson Viana.”

E, ratificando o que eu disse, Vilma Mota Quintela, que assina a apresentação do livro (págs. 14-15), ressalta a presença de elementos que, direta ou indiretamente, remetem à mitologia greco-romana:

 “Dentre as formas da cantoria, a sextilha, a mais usada na literatura de cordel, é também a forma privilegiada no romance. Como um seguidor declarado da escola de Leandro, Marco Haurélio dedica atenção especial a essa modalidade. No ponto em que se encontra a sua produção, podese dizer que sobressai, no seu repertório, o romance de aventura e encantamento, um dos filões também muito explorados por poetas como Manoel D’ Almeida Filho, Severino Borges e Minelvino Francisco Silva, entre outros expoentes da escola tradicional. Quatro dos cinco romances aqui apresentados situam  se nessa categoria. No primeiro destes, O herói da Montanha Negra, o autor articula elementos remanescentes da narrativa de aventura medieval, do gênero capa e espada, com motivos do conto oral tradicional, enriquecendo a narrativa com referências à mitologia grega. O enredo traz a história de um jovem aventureiro que, munido apenas de sua espada, enfrenta diversos obstáculos, naturais e sobrenaturais, para resgatar a princesa enclausurada. No romance, os nomes Glauco e Climene, atribuídos ao herói e à princesa, remetem residual e casualmente à mitologia grega, já que o enredo traz a estrutura e os motivos narrativos característicos do conto fantástico  maravilhoso tradicional, com análogos em coleções eruditas portuguesas e brasileiras. A referência à mitologia grega, nesse caso, vem a enriquecer o enredo de aventuras, chegando este ao clímax em passagens como a da travessia do riacho Eterno pelo herói, que lembra a travessia do Aqueronte por heróis mitológicos como Hércules e Orfeu. No trecho a seguir Glauco derrota o mastim, associado, pelo narrador, ao cão Cérbero, guardião do Hades:

          (...)
Naquela triste montanha
Nascia o riacho Eterno,
Que descia numa gruta
E desaguava no Inferno,
Com suas águas ferventes
Que percorriam o Averno.

Glauco se aproximou
Do rio amaldiçoado
E subiu na frágil ponte
Pra chegar do outro lado,
Ansioso pra enfrentar
O monstro endemoninhado.

Essa ponte o conduziu
A uma caverna escura –
Nela o moço penetrou
Através duma abertura,
Mas lá dentro o esperava
Uma estranha criatura.

Esse ser era um mastim
Com cauda de escorpião,
Escamas por todo o corpo
E as garras de leão,
Mais horroroso que Cérbero,
O tartáreo guardião.”


***
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Cordéis atemporais: Vicente, o Rei dos Ladrões

A história, em sua última parte, que envolve o saque ao tesouro do rei, consta de um conto popular egípcio de cerca de 3.000 anos, O tesouro de Ramsés, o qual chegou ao poeta, por meio de uma versão oral que ele habilmente costurou na bem urdida trama do romance. Encontramos episódios como o do sacrifício do parceiro preso numa armadilha e o do ferimento acidental para disfarçar o choro pelo morto, que denunciaria o ladrão. Como boa parte dos espertalhões, Vicente é apresentado, nas primeiras edições impressas como “professor de Cancão de Fogo”, conforme salientado no subtítulo, que foi sensatamente suprimido nas sucessivas edições publicadas pela editora Prelúdio desde 1955.

Nos estandes que montei já ouvi mais de uma vez, ao reencontrar o lendário Vicente, um leitor declamar, emocionado, as estrofes de abertura.

Todo o mundo traz o dom,
Conforme diz o rifão:
Existe quem traga até
O dom para ser ladrão –
Sendo pra roubar cavalo,
Traz um cabresto na mão

Neste drama, eu apresento
Vicente, o Rei dos Ladrões,
Que, em todos caloteiros,
Ele passava lições –
Até em Cancão de Fogo,
Segundo as opiniões.

Vicente, o rei dos ladrões é um dos clássicos da Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

Acorda, São João!



O São João dorminhoco da tradição popular, que segura o mundo, aparece na canção São João Dormindo, interpretada pelo inesquecível Elino Julião e composta por Nito Canhete e Aleixo de Freitas:

Acorda meu São João, acorda
Acorda para ver seu dia
Rua enfeitada, fogueira acesa
Quentão na mesa e muita alegria

A noite é linda, o céu estrelado
Os namorados tão se divertindo
Bomba estourando, balão subindo
E não sei porquê meu São João dormindo

A lua vem surgindo cor de prata
Por trás da mata uma estrela brilhou
Para continuar nossa amizade,
Vamos ser cumpadre que São João mandou

Imagem: São João Batista (do mestre do Barroco, Caravaggio)

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Clássico da literatura infantil recontado em cordel


Publicado pela editora Nova Alexandria, o famoso conto infantil Os três porquinhos, recontado em cordel por Marco Haurélio e ilustrado por Adriana Ortiz, trata de valores como amizade, cooperação e responsabilidade. Sem querer passar uma lição de moral, os pequenos leitores aprendem que há tempo para o trabalho e também para a diversão e a imprudência pode trazer sério risco, no conto simbolizado pela figura do Lobo. Tudo isso enriquecido pelas rimas e pela musicalidade da literatura de cordel.

O conto popular Os três porquinhos tornou-se conhecido graças à versão recolhida na Inglaterra pelo folclorista Joseph Jacobs (1854-1916) e publicada na obra Contos de fadas ingleses. Esta versão serviu de base para o desenho animado em curta-metragem dos Estúdios Disney, bem mais amena que o conto em que se baseou. A adaptação para o cordel, preocupada com o leitor de hoje, opta por um caminho diferente, respeitando a faixa à qual o texto de dirige: as séries iniciais do Ensino Fundamental. A estrofe de abertura e as que se seguem tratam do tempo da fábula, o tempo em que os bichos falavam:

Nosso mundo em outros tempos
Era mesmo diferente.
Havia muitas florestas
E rios de água corrente
Os animais conversavam;
Pareciam até gente!

Conta a Dona Carochinha
Que numa terra distante
Vivia um Lobo cruel,
Um animal arrogante,
Perseguindo os outros bichos,
Com uma fome incessante.

Não muito longe de onde
Aquele Lobo vivia,
Numa bonita cabana
Dona Porca residia
Com três filhinhos mimados,
Aos quais muito bem queria.

Na floresta os animais
Tinham medo desse Lobo,
Pois ele só respeitava
Outro bicho em todo o Globo:
Somente o feroz Leão,
Demonstrando não ser bobo.

(...)

Dados
Os três porquinhos em cordel
Texto: Marco Haurélio
Ilustrações: Adriana Ortiz
28 páginas
ISBN 978-85-7492-186-0
Indicação: a partir dos 7 anos

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Trecho do cordel A Idade do Diabo

Xilo da capa: Nireuda

A Idade do Diabo é a versão em cordel de um conto popular do ciclo do ogre (ou demônio) estúpido, segundo o catálogo internacional ATU. Foi escrito em 2005 e inaugurou um novo ciclo na Editora Luzeiro, que passou a publicar, também, folhetos no formato tradicional do Nordeste (11X15cm). A nota abaixo foi extraída do livro Contos e fábulas do Brasil, no qual reproduzo a versão em prosa, recolhida em Igaporã, Bahia.

Com muitas reviravoltas e a prevalência da esperteza feminina, A Idade do Diabo lembra o motivo da ajuda sobrenatural condicionada. Uma diferença: não é o nome do ajudante (como no conto de Grimm, Rumpelstilzkin, AT500) que deve ser adivinhado, mas a sua idade, o que livrará o protagonista do castigo. É vasto na literatura de cordel o ciclo de histórias em que o Diabo figura como oponente derrotado pela malícia feminina.

O texto de abertura apresenta ao leitor o protagonista Antônio e sua malfadada ideia:

Neste mundo de meu Deus
Que ninguém se fie por brabo,
Pois pode topar um dia
Frente a frente com o Diabo,
E pode descobrir
Onde a porca torce o rabo.

Num distante lugarejo,
No estado da Bahia,
cerca de oitenta anos,
Um pobre homem vivia
Com uma velha criada,
Lhe fazendo companhia.

nome dele era Antônio,
O da criada era Ana,
Num povoado distante
Tinha ele uma choupana,
vivia com a velha,
Cumprindo a sina tirana.

Por viver na penúria,
Ele ficou desgostoso
E disse: — Se nesta casa
Aparecesse o Tinhoso
Para comprar minha alma,
Tudo seria gozo!

Mal acabou de falar,
À sua porta bateu
Um estranho cavalheiro
Quando Antônio o atendeu
Sentiu um forte arrepio,
Todo o corpo estremeceu.

O tal sujeito trajava
A veste da escuridão,
Na boca tinha um charuto
E uma bengala na mão
Do corpo todo exalava
O cheiro da maldição.

estou às suas ordens,
Disse o sujeito a Antônio.
Este logo percebeu
Que aquele feio quelônio,
Fedendo a chifre queimado,
Devia ser o demônio.

Tornou falar o capeta:
— Vim aqui lhe ofertar
Riqueza para o senhor
Não ter mais que trabalhar
Mas daqui a cinco anos
Sua alma venho buscar.

Refazendo-se do susto,
Antônio disse: — Rapaz,
Aceito a sua proposta,
Porque pra mim tanto faz
Ir pro céu ou pro inferno,
Porque nunca tive paz.

O Diabo então furou
O braço do desgraçado
E o sangue que escorreu
Ele aparou com cuidado
Disse: — Negócio comigo
É no contrato assinado.

Embebeu no sangue a pena,
Deu para Antônio assinar
E disse: — Fique tranqüilo,
Sua vida vai mudar,
Mas daqui a cinco anos,
A conta venho cobrar.

Dizendo isto, foi embora,
Montado num alazão,
Que saiu em disparada,
Fazendo tremer o chão,
Dentro duma labareda
Antônio disse: — É o cão!...

Então a sorte do cabra
Mudou da noite pro dia:
Quanto mais ele gastava
Mais dinheiro aparecia;
Disse: — Adeus tempo ruim!
Agora é mordomia.

Quem foi pobre como Jó,
passando privação,
Agora era bem mais rico
Do que o rei Salomão!
Perto dele o Tio Patinhas
É um reles pobretão.

Pra quem vivia no angu,
Era de se admirar,
Pois sua comida agora
Era um tal de caviar,
Que mandava vir de longe
Para se vangloriar.

Tinha  fazendas e fábricas
No Brasil e no estrangeiro,
E costumava acender
O charuto com dinheiro,
Se esquecendo do trato
Que fez com o catimbozeiro.

Os anos foram passando
Sem Antônio se lembrar
Que quem lhe deu a riqueza
Havia de retornar
E os seus dias de glória
Teriam de terminar.

Um dia, estava deitado
Alguém na porta bateu.
Ele perguntou quem era.
De fora, a voz respondeu:
Não se lembra mais de mim?
Sou seu amigo Asmodeu.

Naquele momento, Antônio
Foi perdendo a esperança,
Pois os fatos do passado
Voltaram à sua lembrança
E disse consigo mesmo:
Agora é que vem lambança!”

Quando ele abriu a porta,
O excomungado entrou
Dizendo: — Amigo, prepare-se,
A sua hora chegou! ...
Antônio, ao ouvir aquilo,
Logo se desesperou.

(...)

Para pedir este e outros títulos clássicos e contemporâneos, entre em contato com a Editora Luzeiro:

Editora Luzeiro Ltda
R. Dr. Nogueira Martins, 538
CEP.: 04143-020 Saúde
São Paulo – SP
Fone: (011) 5585-1800
E-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br

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Marteladas de Nando Poeta

MANISFESTO DO CORDEL
NOS DEZ PÉS DO CAVALO PAULISTANO

Quem plantou a semente do cordel?
Na cidade que acolhe todo mundo
Em São Paulo de um coração profundo
Que abrigou o poeta menestrel
Num recanto que tem sabor de mel
Floresceu a poesia ano a ano
Que edifica o viver do ser humano
Com a coragem e o vigor do retirante
Fez os versos brotarem num instante
Nos dez pés do cavalo paulistano.

É a grande cidade nordestina
Que abraçou a cultura do migrante
E com ela ficou irradiante
Descobriu que o poeta era uma mina
Uma fonte de água cristalina
Que seus versos envenenam o tirano
E alimentam seu povo soberano
Escrevendo a história em poesia
De conflito, de amor e harmonia
Nos dez pés do cavalo paulistano.

Nessa terra o poeta cordelista
Propagou sua arte em todo canto
De alegria, de luta e de pranto
No folheto a poesia romancista
Numa critica segura sempre a vista
Entoou na defesa de um plano
Dos humildes, que vive no engano
De um povo sofrido é o porta-voz
Dos que lutam pra derrotar algoz
Nos dez pés do cavalo paulistano.

O planeta aqui se concentrando
Em diversidade de culturas
Fazendo elevar-se nas alturas
Onde um mundo que foi se edificando
E a riqueza de um povo germinando
Seja Árabe, Espanhol e italiano
Japoneses, o chinês e o africano
Nessa Sampa que é comospolita
A nação nordestina vem na lista
Nos dez pés do cavalo paulistano.

O cordel no sudeste brasileiro
Sempre teve uma forte seleção
É São Paulo seu grande matulão
Do Antonio Teodoro, o garimpeiro
Do Amaro Quaresma, o folheteiro
E de Franklim Maxado, o baiano
Jotabarros que é pernambucano
Manuel de Almeida, o editor
Na Luzeiro o cordel é fina flor
Nos dez pés do cavalo paulistano.

Esse grande elenco fez a trilha
Espalhou na cidade a semente
Se plantou o cordel em cada mente
Que a estrela até hoje sempre brilha
Construindo mais essa maravilha
E no mundo literário é um vulcano
Tem a força bravia do oceano
O cordel faz em Sampa o movimento
Que propaga ligeiro como o vento
Nos dez pés do cavalo paulistano.

São Paulo hoje em dia é a arena
De uma turma que leva o cordel
Sem fronteira e da arte é fiel
Que entrou nesse mundo abrindo a cena
Florescendo de forma tão serena
De uma muda do chão paraibano
Hoje voa bem alto ganha, plano
E na casa da Semana da Arte
O cordel já é forte baluarte
Nos dez pés do cavalo paulistano.

Na cidade o poeta peregrina
Declamando as histórias de seu povo
Transformando o antigo em algo novo
Levantando esse mundo da ruína
Nos seus versos habita a proteína
Caravana do Cordel nesse mundano
É movimento que tem grande tutano
E em São Paulo esse time acende a chama
E o amante da arte nele aclama
Nos dez pés do cavalo paulistano.